Outubro ou junho de 1895

AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

No santo sepulcro, Maria Madalena
Procurando seu Jesus, curvava-se em prantos;
Os anjos queriam suavizar sua dor,
Mas nada poderia pacificar suas penas.
Não era a vós, luminosos Arcanjos,
Que aquela alma ardente vinha procurar;
Ela queria ver o Senhor dos Anjos,
Tomá-lo em seus braços, bem longe o levar.

De junto do túmulo fora a última a afastar-se
E a primeira a vir com a luz do dia;
Seu Deus também veio, velando sua luz,
Pois, em questão de amor, ela não o vencia.
E Jesus, ao mostrar seu Divino Semblante,
Um nome, apenas um, lhe sai do Coração,
Dizendo-lhe: Maria! E foi nesse instante
Que a encheu toda de paz e de consolação.

Bem como Madalena, assim também, um dia,
Eu quis Te ver, de Ti me aproximar.
Nas plagas deste mundo o meu olhar queria
Encontrar o seu Mestre e descobrir seu rei.
Eu exclamava, olhando a onda pura,
O azul estrelado, a flor e o pássaro:
“Se em ti não vejo Deus, natureza brilhante,
Não passas, para mim, de um vasto cemitério”.

Desejo um coração ardente de ternura,
Que um apoio me dê sem nada reclamar,
Amando tudo em mim, até minha impotência
E noite e dia assim, sem nunca me deixar.
Jamais encontrei nenhuma criatura
Que pudesse me amar, mas sem poder morrer:
Um Deus deve tomar a minha natureza,
Tornar-se meu irmão para poder sofrer.

Tu me escutaste, Amigo único que amo,
Tornando-Te mortal para me conquistar;
Derramaste Teu sangue, mistério supremo!...
E todavia vives para mim no Altar.
Se não posso ver o brilho de Tua Face,
Ouvir Tua voz de plena mansidão,
Posso, ó Deus, viver de Tua Graça,
Posso repousar em Teu Sagrado Coração.

Coração de Jesus, tesouro de ternura,
Minha felicidade e única esperança,
Tu soubeste encantar minha terna juventude,
Fica junto a mim quando a última noite chegar!
Senhor, a Ti, só a Ti dei minha vida,
E todos os meus desejos os conheces bem;
É na Tua bondade sempre infinita
Que me quero perder, Coração de Jesus!

Bem sei que todas as nossas justiças
aos Teus olhos não têm nenhum valor.
Para valorizar meus sacrifícios
Eu os quero lançar em Teu Divino Coração.
Encontraste defeito até em Teus anjos;
No seio dos trovões emites Tua lei!...
Em Teu Coração Sagrado, Jesus, me escondo,
E nada temo, minha virtude és Tu!...

Para poder contemplar Tua glória,
Eu sei que deverei passar por fogo,
Mas escolho sofrer a chama purgatória
Do Teu ardente Amor, Coração de Meu Deus!
A minh’alma, ao deixar o exílio desta vida,
Quer fazer um ato de puro amor,
E voando ao Céu, sua Pátria,
Entrar no Teu Coração sem olhar para trás.