Ao trilhar qualquer caminho, é muito importante ir na direção certa, e ninguém aprecia melhor que o próprio caminhante a utilidade de ter a seu lado um guia perito. Para as Carmelitas, a melhor guia era e é sua Madre Teresa, e isto não só porque, à época, ela já havia percorrido quase todo o caminho - de fato, quando escreveu o Caminho de Perfeição, já havia chegado à oração de união -, mas sim porque, como Madre Fundadora, tinha o direito e a obrigação de ensinar os seus seguidores a percorrerem esse caminho. Foi o que quis fazer quando se decidiu a escrever seu comentário do Pai-Nosso, baseando-se na oração dominical como em um mapa descritivo das diversas etapas do caminho.
Seu comentário - que constitui os 16 últimos capítulos do Caminho, cap. 27-42 - é muito original e inspirado; não acusa influência alguma dos livros de devoção medieval ou da devotio moderna. É verdade que o comentário à oração do Senhor é um tema clássico na tradição católica e foi objeto de belas reflexões dos Padres da Igreja, tais como Orígenes, Cipriano, João Crisóstomo, Basílio, Gregório Magno, Tomás de Aquino e outros teólogos escolásticos. Contudo, é muito duvidoso que a Santa se tenha inspirado em algum deles, já que todos circulavam impressos em latim, idioma que ela não entendia. Daí a singular originalidade do seu comentário.
A Madre Teresa vai expondo, uma por uma, as várias petições do Pai-Nosso, achando em cada uma a guia para os vários estágios da oração. Uma prova de que não se inspira em algum autor particular é que, ao chegar ao fim, sente-se agradavelmente surpresa com a riqueza insuspeitada de tão bela oração, afirmando ter sido o próprio Nosso Senhor quem lhe havia descoberto suas riquezas, para que pudesse instruir suas filhas (cf. C 42, 5). Não tendo em sua mente um plano preconcebido para o comentário, este se desenvolve sob a inspiração do Espírito Santo. Assim, a oração dominical deverá ser o guia efetivo e prático de toda a sua doutrina sobre a oração. Vejamos brevemente:
- Na primeira invocação, Pai Nosso, a Madre vê o estágio inicial da oração (cf. C 26-27).
- As palavras que estais nos céus sugerem-lhe a forma de oração tão importante, chamada de recolhimento ativo, que constitui o verdadeiro método teresiano de oração (cf. C 28-29).
- A petição santificado seja o vosso nome é explicada em relação à oração de quietude (cf. C 30-31).
- A primeira parte da oração dominical termina com a petição seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu, que, para a Santa, indica o grau de oração de união com Deus (cf. C 32-33).
Da mesma maneira, poderíamos expor as demais petições do Pai-Nosso tais como Santa Teresa comentou-as em seu Caminho de Perfeição. Contudo, acreditamos que, para uma visão mais clara e definitiva de seus ensinamentos, será mais útil resumir os graus de oração que a Santa ilustra sem limitar-nos só ao Caminho, mas recorrendo também às suas demais obras.