1. Os primeiros passos

A Santa aparece aqui como uma mãe carinhosa, que leva as filhas pela mão e lhes ensina com todos os detalhes como devem proceder na oração. Começa dizendo: “A primeira coisa, já se sabe, é fazer o sinal da cruz, examinar a consciência e depois dizer a Confissão. Logo em seguida, filhas, procurai achar companhia, pois estais sós. E que melhor companhia que a do próprio Mestre? Afinal, foi ele que nos ensinou a oração que ides rezar. Fazei de conta que tendes o próprio Senhor junto de vós e vede com que amor e humildade vos está ensinando. Crede-me, filhas, acostumai-vos quanto puderdes a estar sempre com tão bom amigo, trazendo-o assim presente. Ele verá que lhe tendes amor e andais buscando meios de o contentar. Não podereis, como se diz, afastá-lo de vosso lado, e ele nunca vos faltará. Será vosso auxílio em todos os vossos sofrimentos. É pouco ter sempre tal amigo a vosso lado?” (C 26, 1).

Sem fazer complicadas análises psicológicas, a Madre apela para sua experiência pessoal, recordando as limitações de nossa natureza, que nos impede de entrar em íntima conversação com Cristo da noite para o dia. De fato, algumas vezes nos sentiremos cheios de entusiasmo, outras, deprimidos e desanimados; haverá tempos de alegria, seguidos de momentos de melancolia e tristeza. O que realmente importa é não desanimar nem afligir-se, e sobretudo, não deixar de caminhar sempre em frente, porque, se soubermos superar as primeiras dificuldades, acharemos sempre o Amigo divino, a quem poderemos falar e que procuraremos imitar em nossas atividades diárias.

O caminho da oração é longo e, para percorrê-lo, precisamos de toda nossa coragem. O grande segredo é perseverança e determinação de continuar sempre em frente, custe o que custar, pois já não somos meninos tímidos, mas pessoas adultas com uma vocação bem definida, chamadas a uma especial intimidade com o Amigo. Trata-se, além disso, de uma viagem que vai durar nossa existência toda, e, portanto, é preciso grande determinação para chegar à água da vida: “Importa muito, e acima de tudo, uma grande e firme determinação* de não parar até chegar à fonte de água viva, venha o que vier, suceda o que suceder, custe o que custar, murmure quem murmurar, quer chegue ao fim, quer morra no caminho, ou falte coragem para os sofrimentos que nele se encontram. Ainda que o mundo venha abaixo havemos de prosseguir” (C 21, 2).

A Santa Madre usa aqui um de seus freqüentes pleonasmos, determinada determinação, isto é, uma decisão firme e irrevogável. Equivale a dizer: em frente, sempre em frente, continua a caminhar sem parar e chegarás à fonte de água viva! Mulher prática e consciente da mentalidade de certos “letrados” do seu tempo, previne suas filhas contra o desânimo a que alguns deles poderiam induzi-las ao lhes apresentar os riscos que podem encontrar ao percorrer esse caminho, apontando os exemplos de quem caiu em enganos e ilusões. Uma vez mencionados esses argumentos negativos, ela conclui: “Nenhum caso façais dos temores que vos quiserem incutir, nem dos perigos que vos pintarem. (...) Se alguém vos disser que é exercício perigoso, considerai a esse tal como o próprio perigo e fugi dele” (C 21, 5-7).

O que é realmente necessário para percorrer um caminho tão longo e comprometido é um companheiro de viagem, e a Madre já o prevê: que melhor companheiro do que o amigo, Cristo Jesus? “Mas sei também que o Senhor nunca nos deixa tão abandonados, sem que nos venha por vezes fazer companhia. (...) Não vos peço agora que vos concentreis nele formando muitos conceitos, nem que façais com a mente altas e delicadas considerações. Só vos peço que o olheis ainda que de relance, se não puderdes demoradamente. Quem vos impede de volver os olhos da alma a este Senhor?” (C 26, 2-3).

* no original em espanhol: una determinada determinación.