4. Desapego

O último, embora não menos importante, dos pré-requisitos a uma vida de oração é o desapego. O conteúdo doutrinal da palavra “desapego” na literatura ascética, tanto cristã como não cristã, é muito rico e amplo. Resumindo-o, poderíamos dizer que é o estado da alma em que esta se encontra livre de todo afeto desordenado e egoísta para com algo ou alguém. Entretanto, não se refere só à ausência e libertação de todo apego; de fato, muitos autores espirituais usam freqüentemente o termo com um significado mais amplo, de maneira que deve coincidir mais ou menos com as palavras, quase sinônimas, abnegação, renúncia, nudez, mortificação., etc. Assim, São João da Cruz utiliza diversos termos para referir-se ao desapego, como “noite, vazio, purificação, nudez, negação”, cada um deles com um matiz diferente. A Santa Madre Teresa emprega preferencialmente esta palavra no sentido de desapego de todo afeto, e também no de penitência, mortificação, sacrifício, etc, ou seja, para significar as variadas formas ascéticas que a vida religiosa comporta sob forma de pobreza, clausura, penitência, jejum, etc.

Não falta quem afirme que São João da Cruz mostra-se mais exigente do que Santa Teresa em matéria de desapego que, para ele, é uma condição de todo o caminho de perfeição, um nada drástico e intransigente, ao passo que a Santa – como mulher e, portanto, pessoa mais sensível - não seria tão exigente neste aspecto. Entretanto, ambos os Doutores da Igreja pensam de maneira idêntica: para chegar à verdadeira intimidade com Deus e à completa transformação de nossa vontade na sua, será preciso deixar de lado toda amarra desordenada às criaturas.

Algumas citações da Santa Madre sobre o tema nos convencerão de que ela é tão exigente quanto seu filho Frei João da Cruz:

- “Avisei que era de grande importância, ao começarem a oração, as almas se desapegarem de todo gênero de satisfações e entrarem neste caminho determinadas unicamente a ajudarem Cristo a levar a cruz, como bons cavaleiros que, sem remuneração querem servir a seu Rei” (V 15, 11).

- “É grande fundamento resolver-se desde o princípio, com determinação, a seguir o caminho da cruz, sem desejar consolações. O mesmo Senhor mostrou ser essa a estrada da perfeição, dizendo: ‘Toma tua cruz e segue-me’ ”(V 15, 13).

- “A meu ver, não há nem pode haver humildade sem amor, nem amor sem humildade. Nem é possível existirem estas duas virtudes, sem profundo desapego de toda criatura” (C 16, 2).

- “Se o desapego for verdadeiro, parece-me que não é possível sem ele não ofender ao Senhor” (F 4, 5).

- “Com efeito, se nos esvaziarmos de todo o criado e nos desapegarmos das criaturas, por amor de Deus, é certíssimo que o mesmo Senhor nos encherá de si.” (7M 2, 7).

Embora o método de apresentação da própria doutrina seja diferente nos dois Santos – assim, a Santa Madre não segue uma ordem metódica, e São João da Cruz é um professor na exposição sistemática -, pode-se dizer que seus ensinamentos a este respeito são idênticos.

Para confirmá-lo, seja-nos permitido recorrer a um texto mais enfático da Madre Teresa: “O que importa para nós é que nos entreguemos com total determinação, dando-lhe plena liberdade, para que ele possa pôr e tirar à vontade como propriedade sua. E Sua Majestade tem todo o direito, não lhe neguemos o que exige de nós. Como não nos constrange, aceita o que lhe oferecemos. Contudo, não se dá de todo enquanto não nos dermos de todo a Ele. (...) O Senhor, amigo de toda ordem e harmonia, não age na alma, senão quando a vê toda sua e sem partilhas. (...) Se atravancarmos o palácio de gente baixa e de bagatelas, como há de caber nele o Senhor com sua corte? Já muito faria em estar um pouquinho no meio de tanta barafunda” (C, 28, 12).

Uma dúvida surgirá aqui indevidamente em todo leitor que conheça, mesmo superficialmente, a vida destes dois Doutores místicos: como combinar sua insistência no desapego com a prática de sua vida?

Em relação à Santa Madre, sabe-se do afeto que professou a seus familiares, e não menos a tantos filhos e filhas (Padre Gracián, Maria de São José, etc.), como também a muitíssimas pessoas eclesiásticas e leigas. Basta percorrer o seu epistolário para percebê-lo: todas as suas cartas transpiram um afeto intenso e muito feminino pelas pessoas a quem se dirige. Quanto a São João da Cruz, conhecemos sua predileção por seu irmão e sua cunhada, a ponto de que, enquanto foi Superior em Duruelo, Granada e Segóvia cuidou deles, enviando-lhes presentes e dinheiro para atender às suas necessidades.

Pois bem: sabe-se que os Santos não são hipócritas nem pregam o que não praticam. Tem de haver alguma explicação que justifique este modo de agir. E é que, em todo caso, desapego não significa tornar o coração duro e insensível, pois o amor é o primeiro e o maior dos deveres. Quando Santa Teresa e São João da Cruz falam de desapego, referem-se sempre ao interior, ou, como diriam os teólogos, ao desapego “afetivo”, para distingui-lo do “efetivo”. Portanto, quando se viram obrigados a manifestar seu afeto por outras pessoas do modo que acabamos de recordar, não há dúvida de que o fizeram por um motivo sobrenatural. Na verdade, não são as coisas materiais em si que ameaçam o nosso desapego, e sim nossa atitude em relação a elas. O desapego é uma atitude espiritual: um mendigo pode estar mais apegado a um punhado de moedas do que um homem rico à sua fortuna. O que importa é a reta intenção, mais do que as circunstâncias materiais.

Por isto, a primeira coisa que devemos fazer é purificar o nosso coração de todo afeto desordenado para com qualquer criatura, e regular todas as nossas ações pelo amor de Deus, que é quem deve iluminar toda a nossa vida. Eis aqui uma regra de ouro formulada pela Santa em poucas palavras: “(...) desapego que devemos ter, porque tudo depende dele, se for praticado com perfeição” (C 8, 1).