Santa Teresa diz que, embora trate da humildade em último lugar, ela é a principal, pois reúne em si todas as demais virtudes. É óbvio que com isto não pretende fazer dela uma virtude maior que as virtudes teologais - fé, esperança e caridade nem tão pouco que as virtudes cardeais- a humildade é só uma virtude moral. Mas é interessantíssimo estudar o modo original como explica esta virtude.
a) Uma definição original - Santa Teresa define a humildade como humildade é andar na verdade, definição tão concisa que não é fácil entender o que quer dizer sem levar em conta o contexto. Aqui está: Certa vez, estava eu considerando por que razão Nosso Senhor é tão amigo da virtude da humildade. Veio-me logo de improviso, sem trabalho de raciocínio, esta resposta: é porque Deus é a suma verdade - e ser humilde é andar na verdade. Grande verdade é que nada de bom procede de nós, a não ser a miséria de ser nada. Quem não entende isso anda na mentira. Quem melhor o entender, mais agradará à suma Verdade, porque anda em sua presença. (6M 10, 7).
Não reconhecer os dons recebidos não é humildade autêntica, e sim fingida e artificiosa. Se quisermos agradecer a Deus os dons recebidos, nosso primeiro dever é reconhecê-los como tais, porque não há orgulho mais sutil do que atribuir-nos as boas qualidades e pensar que as conseguimos com nosso próprio esforço. Portanto, a verdadeira humildade é a verdade, quer dizer: reconhecer que todas as nossas boas qualidades vêm de Deus, e em compensação, todos os nossos defeitos vêm de nós mesmos. Daí a nossa Santa Madre não gostar dessa humildade artificiosa; tanto é assim que chega a dizer que, quanto mais a alma se mantém nesse estado de reconhecimento de sua própria fraqueza, mais se aproxima de Deus: Ele é muito amigo da humildade. Se vos considerardes indignas de merecer o ingresso mesmo nas terceiras moradas, mais depressa lhe movereis a vontade para vos admitir na quinta. Então, continuando a freqüentar essas quintas moradas, entrando nelas muitas vezes, podeis servi-lo de tal modo que vos acabe introduzindo no aposento que reservou para si (M conclusão 2).
Segundo a Santa, é falsa humildade dizer sou a última das criaturas se isto não for verdade. E, para ilustrar graficamente a importância desta virtude na vida de oração, lançou mão de um exemplo muito original, o do jogo de xadrez, comparando a humildade com a rainha, que pode dar xeque-mate no Rei da glória (cf. C 16, 1-2). Foi esta virtude, diz a Santa, que trouxe o Senhor do céu nas entranhas da Virgem (ibid.). Não é maravilhoso que uma pobre monja possa dar xeque-mate no Rei da glória?
b) A virtude da humildade em seus escritos - Seria preciso muitas páginas para incluir aqui textualmente as numerosas citações que nos deixou sobre a virtude da humildade. Por isso, acredito que é mais prático resumir aqui os seus ensinamentos em alguns pontos que nos façam ver a importância da virtude e que caracterizam o homem verdadeiramente humilde:
- Nunca perde de vista o que realmente é. Isto significa que devemos ter sempre em mente o que somos, quer dizer: nada, já que tudo o que temos vem de Deus (cf. 7M 4, 2).
- Aceita os dons de Deus com reconhecimento, como não merecidos. Reconhece humildemente que foi Deus quem os deu e nunca os considera como se fossem próprios (cf. V 10, 4; C 38, 3).
- Está sempre contente e feliz em servir a outros (cf. C 17, l).
- Confia pouco em si mesmo e em suas aptidões (cf. Ditos 2, 25).
- Esquece-se de si e procura servir ao Senhor que lhe deu tudo o que tem (cf. C 36, 10).
- Foge de qualquer louvor que possam lhe fazer (cf. 5M 3, 11).
- Deseja ser tido como pouco (cf. C 15, L.).
- Não deseja honrarias nem cargos, sejam de que tipo forem (cf. C 12, 6).
- Não se deixa afetar em seu agir pela honra ou desonra que dele possa decorrer (cf. C 12, 13).
- Não olha nunca as faltas ou pecados dos outros, mas apenas os próprios. Esta é uma regra muito importante, porque julgar os outros é apropriar-se de uma função que cabe somente a Deus (cf. C 19, 5).
- Sempre duvida das próprias virtudes e freqüentemente considera mais seguras e de maior quilate as que vê no seu próximo (C 38, 9).
- Procura saber a verdade, submete-se ao confessor e trata com ele com verdade e simplicidade (cf. C 40, 4).
- Suporta com serenidade seus próprios pecados e misérias, coisa importante na vida espiritual, porque irritar-se ou deprimir-se por causa deles é sinal de que atribui todo progresso aos seus esforços pessoais (cf. C 39, 1-2).
- Deseja ser tido por pouco e perseguido e condenado sem culpa, até em coisas graves (cf. C 15, 2).
- Permanece sempre contente com o que o Senhor quiser fazer dele, sentindo-se indigno de chamar-se seu servo (cf. C 17, 6).
Como pode constatar-se, temos aqui um belo tratado sobre a humildade que, em vez de abater e desanimar, consola e ilumina. Só nos resta esforçar-nos para colocá-los em prática.