A Madre Teresa não se perde em digressões teológicas sobre a graça (atual ou habitual, adquirida ou infusa, etc.), mas vai diretamente ao essencial: Já sabeis que a primeira pedra há de ser a boa consciência e, com todas as vossas forças, livrai-vos até dos pecados veniais e segui o mais perfeito... Sobre isto assenta bem a oração; sem este forte alicerce, todo o edifício vai em falso (C 5, 3-4). Em outras palavras: devemos fazer todo o possível para conservar-nos em estado de graça habitual e evitar até os pecados veniais.
Santa Teresa trata o tema da boa consciência sob dois aspectos distintos: um negativo, o outro positivo.
a) Aspecto negativo - O aspecto negativo implica a abstenção de todo pecado mortal e até dos pecados veniais deliberados. A Santa não escreveu muito sobre o pecado mortal, mas encontramos, lá e cá, expressões suas que nos traçam um quadro bastante claro sobre o que pensava a respeito. Assim, por exemplo: O pecado é uma guerra campal travada contra Deus por todos os nossos sentidos e potências da alma (Excl. 14, 2). Nesta vida, só o pecado merece ser chamado de mal, por acarretar males eternos e para sempre (1M 2, 5). Em suma: é a perda total da graça: Vi com quanta justiça se merece o inferno por uma só culpa mortal (V 40, 10).
Quando trata do pecado venial, é surpreendente ver como sabe explicá-lo bem, tanto que dá a impressão de ser uma teóloga moralista por profissão. Suas reflexões são muito instrutivas e mostram claramente que o estado de pecado venial deliberado é incompatível com a vida de oração. Escreve: Tende em conta o aviso de extrema importância que consiste em trabalhar sempre por adquirir grande determinação de nunca ofender ao Senhor e de estar dispostas a perder mil vidas de preferência a fazer um só pecado mortal. Dos veniais guardai-vos com sumo desvelo. Refiro-me aos que se cometem com advertência, pois, sem ela, quem estará livre de cometer muitos? Mas há uma advertência de caso pensado. Há outra tão rápida que fazer o pecado e ter consciência dele é quase a mesma coisa. Nem chegamos a entender bem o que fazemos. Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por pequeno que seja! Quanto mais que não pode haver pouco, sendo contra tão grande Majestade, que nos está olhando continuamente, como sabemos muito bem. Parece-me a mim que é pecado premeditado. É como se alguém dissesse: Senhor, ainda que vos magoe, farei este ato. Bem convencida estou de que o vedes e não o quereis, mas antes quero seguir meu capricho e apetite do que vossa vontade. Não me parece que possa haver pouco esta matéria, por leve que seja a culpa, senão muito, e muitíssimo (C 41,3).
Como vemos, a Santa Madre refere-se aos pecados cometidos deliberadamente, que têm sérias conseqüências para a vida de oração, já que com eles antepomos nossos caprichos à vontade de Deus. Longe de considerá-los irrelevantes, a Santa leva-os muito a sério, já que, embora não rompa definitivamente nossa amizade com Jesus, o pecado venial esfria e enfraquece o ardor do amor. Sabe-se que dependemos de Deus em tudo e que, se agirmos deliberadamente contra Ele, também Ele se mostrará menos generoso conosco. Por isso, a Santa insiste em que, para que nossa amizade com Cristo seja forte e permanente, devemos provar nosso amor com fatos, não só com palavras. O pecado venial é um obstáculo à nossa intimidade com Cristo, diminui o ardor de nosso abandono e paralisa a nossa vontade nas obras; isto contradiz o amor, de forma que a relação mútua de amor fica limitada a uma simples formalidade. Daí a lei básica da psicologia do amor: devemos amar a Deus segundo nossa natureza humana, e portanto, segundo a totalidade do nosso ser psicológico.
b) Aspecto Positivo - Para explicar o aspecto positivo da boa consciência, a Santa Madre também recorre a uma grande variedade de fórmulas e metáforas: seguir sempre o caminho mais perfeito em tudo o que fazemos por Nosso Senhor (cf. C 3, 4; 5, 2, etc.); cuidar bem do jardim da alma, extirpando dele as ervas daninhas para que o Senhor se deleite... e plantar as boas (cf. V 11, 6; 7M 4, 9); servir a Nosso Senhor (cf. 7M 4, 6); todo pensamento deve concentrar-se em procurar maneiras de agradá-Lo e lhe mostrar o quanto o amamos (cf. 7M 4, 6). : Minhas irmãs, quero que procuremos alcançar este alvo. Desejemos e pratiquemos a oração a fim de nos satisfazer, mas para termos forças no serviço de Deus. Não sigamos caminho não trilhado, pois noa perderemos no melhor do tempo (7 M 4, 12)
Estes são os fundamentos positivos da boa consciência. Se os praticarmos com empenho, estaremos em condições de aproximar-nos muito de Deus. E não esqueçamos que a Santa afirma que a primeira pedra tem de ser a boa consciência (C 5,3).