REQUISITOS PRÉVIOS PARA UMA VIDA DE ORAÇÃO

À primeira vista, pode parecer um tanto estranho que um livro como o Caminho de Perfeição, escrito pela Madre Teresa para ensinar a suas filhas a oração mental, só entre no assunto no capítulo 22. Pensando bem, contudo, é uma postura lógica e de simples senso comum, pois não se trata de um simples ato de piedade, mas de uma vida inteira de oração: é muito adequado começar explicando o ambiente ou os requisitos prévios para levar esse gênero de vida.

Por isso, escreve com razão a Madre: “Foi sobre a oração que pedistes alguns conselhos. Em paga do que eu vos disser, peço-vos que observeis e leiais muitas vezes, de boa vontade, o que vos escrevi até aqui. Antes de me referir ao interior, isto é, à oração propriamente dita, direi algumas coisas necessárias que, mesmo sem serem almas muito contemplativas, poderão progredir rapidamente no serviço do Senhor. Ao invés, é impossível serem grandes contemplativas se negligenciarem essas recomendações, e, quem se tiver nesta conta, estará muito enganada” (C 4, 3).

Como se vê, esta introdução é original como o próprio carisma teresiano, já que se trata de pré-requisitos essenciais para a vida de oração. A Santa Madre está tão convencida da importância de uma atmosfera adequada para se viver essa vida que, ao receber as postulantes à sua Ordem, diz: “É preciso grande informação para receber as postulantes e larga provação antes de admiti-las à profissão. Saiba o mundo, uma vez por todas, que tendes liberdade para as despedir. Em mosteiro onde se professa vida austera, muitos motivos pode haver para isso e, se virem que é este o vosso costume, ninguém se ofenderá” (C 14, 2).

Seria um erro pensar que a Madre queria que suas postulantes ou noviças já fossem santas e perfeitas. Não, esta seria a meta a ir atingindo pouco a pouco. Exigia, isto sim, que suas noviças se sentissem felizes naquela atmosfera que incluía os quatro requisitos prévios, que explicaremos a seguir. Assim escreveu: “Não penseis, minhas amigas e irmãs, que serão muitas as coisas a serem recomendadas. (...) Estender-me-ei tão somente em declarar-vos três portanto, que são das mesmas Constituições, porque muito importa entendermos o grandíssimo proveito da sua observância, para alcançarmos, interior e exteriormente, a paz tão recomendada pelo Senhor. O primeiro é o amor de umas para com outras; o segundo, o desapego de todo criado; o terceiro, a verdadeira humildade, e este, embora seja enumerado por último, é o principal e abrange a todos” (C 4, 4). Se às três indicadas acrescentarmos a “boa consciência” que depois mencionará (cf. C 5, 2), já temos elencadas as quatro colunas que são o alicerce e a base da vida teresiana de oração.

Esses requisitos prévios a uma vida carmelitano-teresiana devem ser considerados em uma determinada ordem e analisados com certo método, mas devem ser entendidos apenas como uma sistematização de idéias para sua melhor compreensão. Estes quatro requisitos estão tão relacionados entre si que, praticando um, pratica-se todos de uma vez, e são tão essenciais para uma reta construção da vida de oração que, na verdade, não é possível antepor-se um ao outro, assim como não se pode eliminar um sem que os outros sofram e se ressintam. Devem ser como os quatro pilares de uma construção: cada uma deles deve ser considerado fundamental.

A Santa Madre se deu conta disso muito cedo, razão pela qual começou por esta observação tão bela como lógica: “A meu ver, não pode haver humildade sem amor, nem amor sem humildade. Nem é possível existirem estas duas virtudes sem profundo desapego de toda criatura” (C 16, 2). Foi, sem dúvida, a lógica da vida que a fez dar-se conta de que não é possível dar mais importância a um do que a outro elemento desses requisitos prévios, e que nenhum deles pode existir sem o outro, porque todos eles são meios que ajudam a viver a vida de plena intimidade com Deus, e não fins em si mesmos.

Para maior clareza, abordaremos os quatro pré-requisitos na seguinte ordem: boa consciência, humildade, caridade fraterna e desapego. É interessante notar, de passagem, sua maravilhosa correspondência com as quatro leis fundamentais da amizade de que falamos no capítulo anterior, ou seja: boa consciência = mútuo encontro, humildade = conhecimento mútuo, amor de umas para com as outras = amor mútuo, desapego = conformidade de vontades.

Na verdade, é a lógica da vida que unifica estes quatro elementos; daí que, sem procurá-lo, a exposição da Madre Teresa é muito coerente, e os vinte e um capítulos do Caminho que precedem aquele em que começa a explicar seu conceito de oração mental correspondem precisamente a essas quatro leis da amizade. Parece-nos muito conveniente recordar este ponto, pois acreditamos sinceramente que não seria possível explicar esses elementos teresianos guiando-nos pelos livros clássicos de teologia; quem tentasse fazê-lo não demoraria muito para perceber seu próprio fracasso. De fato, a Madre não enfrenta esses temas a partir de uma teologia teórica ou especulativa - que, por outro lado, não possuía -, mas do ponto de vista prático. O que pretende é simplesmente explicar às suas filhas a natureza da vida de oração - à que por vocação se consagraram, com sua vertente eclesial; assim, brotam de sua pena definições engenhosas e originais do que são boa consciência, humildade, amor fraterno e importância do desapego, tão externo como interno. Estes são os elementos que criam a atmosfera necessária a uma vida de oração. Vejamos agora cada um deles.