A idéia que a Madre Teresa teve da vida de oração organizada em seu Carmelo foi bem clara e precisa desde o começo em São José. Em seus planos, nunca a considerou como um objetivo limitado e pessoal - como se, uma vez atingido, já não restasse nada a fazer -, mas simplesmente como um meio que nos torne mais capazes e eficazes no serviço ao Cristo total, quer dizer, a Cristo e sua Igreja.
Em virtude de sua vocação, todo religioso consagra-se ao serviço da pessoa divina de Cristo e de seu Corpo Místico, que é a Igreja. Na realidade, foi Ele quem, com sua vida, paixão e morte, redimiu o gênero humano, e pagou superlativamente o preço de sua salvação. É esta que os teólogos católicos chamam de redenção objetiva, para a qual uma só gota do precioso sangue de Cristo teria sido suficiente. Mas a redenção subjetiva verifica-se e se perpetua através dos séculos até que seja obtida pelo último dos redimidos. É verdade que Jesus Cristo poderia ter disposto de outro modo, mas, em sua infinita sabedoria e misericórdia, confiou à sua Igreja a atuação para a salvação de todas as almas. Enquanto isto não acontecer, não poderemos ter certeza de que amamos a Cristo se não amarmos também a missão salvadora que Ele continua realizando por meio de sua Igreja.
Por isso, é preciso reconhecer que Santa Teresa estava muito inspirada quando assinalou que a lei da verdadeira amizade é a conformidade da nossa vontade com a de Cristo nosso Amigo (cf. V 8, 5). Por isso, a Santa insiste em que a razão de ser da nossa vida de oração não é termos prazer, mas termos força no serviço do Amigo (7 M 4, 12) ou, o que é igual: a oração não deve levar só a uma satisfação pessoal, mas tornar-nos eficazes instrumentos de Cristo na aplicação de sua graça redentora a todas as almas. Não deixa de ser surpreendente que Teresa tenha visto claramente a importância dessa vida de participação na missão salvífica de Cristo em uma época em que a teologia sobre a Igreja ainda era muito embrionária. Já naquele tempo, sentia-se unida a Cristo, identificada, de certo modo, com sua obra redentora, embora ainda não tivesse brilhado em sua alma o gênero de vida que logo estabeleceria no Carmelo, sendo ela mesma seu melhor modelo.
Há uma passagem muito importante no Caminho que só agora podemos compreender perfeitamente à luz da teologia dos carismas. Diz assim: A princípio, quando se tratou da fundação deste mosteiro, não tive a intenção de estabelecer tanta aspereza no exterior (...). Nesta ocasião, tive notícias dos prejuízos e estragos que faziam os luteranos na França, e o quanto ia crescendo esta desventurada seita. Deu-me grande aflição, e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava com o Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam. Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo. Confiava na grande bondade de Deus, que nunca falta a quem por ele se decide a tudo deixar. Sendo elas tais como eu as pintava em meus desejos, entre suas virtudes desapareceriam minhas faltas, e assim poderia eu de algum modo contentar ao Senhor. E, ocupadas todas em orações pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse a nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-lo de novo, deixando-o sem ter onde reclinar a cabeça. (C 1, 1-2).
Ao estabelecer esse gênero de vida, feito de oração, penitência, silêncio e solidão, o plano da Santa Madre foi formar amigos fortes e fiéis de Cristo, preparados para fazer por Ele muito mais do que os próprios teólogos e sacerdotes. Bem convencida disto, a Santa prossegue: Ó, minhas irmãs no Cristo! ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, já que para este fim vos reuniu aqui. Esta é a nossa vocação. Estes hão de ser vossos negócios. Estes, vossos desejos. Aqui se empreguem vossas lágrimas. Sejam estes os vossos pedidos e não, irmãs, súplicas por negócios do mundo (C 1, 5). E para que não paire dúvida alguma, acrescenta esta declaração terminante: Se vossas orações e desejos, disciplinas e jejuns não se empregarem no que deixei indicado, ficai certas de que não realizais nem cumpris o fim para o qual o Senhor vos reuniu aqui. (C 3, 10).
Não há dúvida de que uma intuição clara e taxativa como esta da Madre Teresa, no momento crítico por que a Igreja de seu tempo passava, é um autêntico carisma inspirado pelo Espírito Santo, cujo modo de agir é sempre misterioso para nós; não revela em seguida e desde o princípio todos os seus desígnios, completos até o último detalhe.
E foi precisamente o que ocorreu com o carisma de Santa Madre Teresa. Já vivia há quase quatro anos muito feliz com suas filhas em São José de Ávila, pensando que seu ideal já estava plenamente realizado, quando em 1566, recebeu a visita de um sacerdote missionário franciscano, o Pe. Alonso Maldonado, que lhe falou a respeito dos muitos milhões de almas que se perdiam na América por falta de doutrina (F 1, 6). Desfeita em lágrimas, a Santa orou diante do Senhor pedindo-lhe que lhe ensinasse um modo como ela poderia contribuir para a salvação de tantas almas. A única resposta do Senhor foi: Espera um pouco, filha, e verás grandes coisas (F 1, S). A Santa não tinha a mínima idéia de quais seriam essas grandes coisas que aconteceriam, mas os caminhos do Senhor são sempre assim.
Nesse mesmo ano, chega a Ávila o Superior Geral da Ordem, Juan Bautista Rossi (Rubeo), que, após longas conversas com Santa Teresa, deixa de lado os preconceitos que trazia contra a iniciativa da Santa, e não só aprova a fundação de São José de Ávila como também a autoriza a espalhar suas fundações de monjas por toda a Espanha. Mas isto era só um começo do que antes não podia entender (F 2, 4). O complemento do seu plano institucional seria a criação de pelo menos duas comunidades de Frades com uma dupla missão: assistência espiritual a suas filhas e apostolado sacerdotal e missionário. Mas isto era pedir demais, e o Padre Geral deixou a cidade de Burgos sem ousar a conceder-lhe a autorização.[3] No entanto, a Santa Madre não se dava facilmente por vencida e, graças à sua habilidade excepcional, acabou conseguindo a autorização necessária para fundar dois conventos, e pôs mãos à obra: primeiro, ganhando alguns religiosos para o seu projeto; depois, fornecendo-lhes lugar, meios econômicos, hábitos, ou seja, todo o necessário para começar o seu novo gênero de vida, o que ocorreu em Duruelo em 28 de novembro de 1568 (cf. F 14). Em suma: em um tempo relativamente breve, conseguiu ver realizarem-se aquelas grandes coisas que o Senhor lhe havia prometido. Assim a Santa viu concretizado o seu sonho de ajudar de modo eficaz ao seu divino Esposo no grande empreendimento de redenção da humanidade.
Há quem pense que o Carmelo Teresiano atual deixa bastante a desejar em relação à sua vocação específica, pois não produz o mesmo número de místicos que no passado. Mas quem pode afirmá-lo com certeza? À primeira vista, pareceria natural que, dado o número atual de membros da Ordem (13.000 religiosas e 3.000 religiosos, segundo o cálculo de 1979,[4] comparados com 200 e 300 respectivamente do tempo da Santa Teresa), florescessem mais almas místicas do que no passado. Mas, na verdade, estes são dons gratuitos de Deus e só Ele sabe o porquê.
Mais ainda: este modo tão limitado e humano de encarar nossa vocação não é só dos estranhos à Ordem, mas também de seus próprios membros. Na época atual - de tão ativo apostolado no campo social -, não é incomum ouvir queixas e preocupações dos que acreditam que o Carmelo Teresiano moderno não participa como deveria desse apostolado, nem do apostolado missionário e educacional em que a hierarquia da Igreja Católica parece tão empenhada. Também não faltam algumas irmãs nossas de clausura que se sentem um pouco frustradas e sentem suas vidas um pouco vazia se não puderem participar mesmo em termos limitados - do campo do apostolado social da Igreja junto aos pobres.
Como é verdade que não há nada de novo sob o sol! Essas mesmas objeções foram apresentadas à Madre Teresa por algumas irmãs de seu tempo, e a Santa deu-lhes uma resposta concludente: A outra objeção é a de que não podeis nem tendes meios de ganhar almas para Deus. De boa vontade o faríeis. Contudo, não vos cabendo ensinar nem pregar a exemplo dos apóstolos, não sabeis como agir. A isso já respondi por escrito mais de uma vez talvez mesmo neste Castelo, não sei. Como, porém, creio que a dúvida vos passe pela mente, junto com os grandes desejos que o Senhor vos dá, não deixarei de repeti-lo aqui. Já vos disse em outra parte (3M 2, 13) que algumas vezes o demônio nos inspira desejos magnânimos, para deixarmos de lado ocasiões atuais de servir a Nosso Senhor em obras positivas e realizáveis. Ficamos desejando coisas impossíveis. Muito fareis com a vossa oração, não há dúvida. Contudo, já não falo nisso. Só vos digo uma coisa: não queirais ajudar a todo o mundo. Contentai-vos em ajudar aqueles que estão em vossa companhia. A vossa obrigação para com eles é maior. Desse modo, a vossa obra será tanto mais meritória. Julgais que é pouco lucro abrasá-los todos com o fogo de vossa grande humildade, mortificação, diligência em servir às irmãs, caridade sincera para com elas e amor de Deus? Ou se, com as demais virtudes, os encheis de estímulo? Não é pequeno, mas grandíssimo proveito e muito agradável serviço prestado ao Senhor. Vendo que realizais as obras a vosso alcance, Sua Majestade entenderá que faríeis muito mais se pudésseis. Assim vos dará o prêmio como se lhe tivésseis ganho muitas almas. (7M 4, 14).
Para evitar mal-entendidos e para que suas filhas não pensassem que se esquivava da questão, a Santa acrescenta com clareza: Direis que não é converter almas, porque todas aqui são boas e virtuosas. Que tendes vós com isso? Que vos importa? Quanto melhores e mais perfeitas, tanto mais os seus louvores serão agradáveis ao Senhor. Na mesma proporção, tanto mais as suas orações serão de proveito para os próximos. Enfim, minhas irmãs, concluo com este pensamento: não construamos torres sem alicerces firmes. O Senhor não olha tanto a magnificência das obras. Olha mais o amor com que são feitas. Se realizarmos o que está ao nosso alcance, o que depende de nós, Sua Majestade fará com que o continuemos realizando cada dia mais e melhor. Não nos cansemos logo. No breve tempo desta vida que talvez dure menos do que pensamos ofereçamos interior e exteriormente ao Senhor o sacrifício que estiver em nossas mãos. Sua Majestade o juntará com a oblação que de si mesmo fez ao Pai na cruz, por todos nós. Assim lhe conferirá o valor merecido por nosso amor, nossa boa vontade, ainda que as obras sejam pequeninas (7M 4, 15).
Ao responder de forma tão sensata às objeções das monjas de seu tempo, a Santa Fundadora também previu e respondeu às preocupações de algumas religiosas do nosso tempo que parecem não ter entendido bem qual é a essência de sua própria vocação teresiana. A Igreja de Deus precisa é da ajuda de todos os seus filhos e de sua variada colaboração, mas de cada um segundo seu próprio carisma; sendo fiéis a ele, cumpriremos nosso dever e missão na Igreja. O próprio Cristo revelou à Santa Madre que, para ela, este seria o modo mais eficaz de participar de sua missão dentro do Corpo Místico.
No carisma teresiano, o apostolado da oração mental está intimamente ligado ao da mortificação e da penitência. Se a Madre Teresa fundou o seu primeiro conventinho de São José com tanta austeridade, foi para que as almas chamadas por Deus a esse gênero de vida encontrassem ali não só um ambiente propício para a oração, mas também uma atmosfera de mortificação e penitência, e assim pudessem contribuir mais eficazmente para o empenho apostólico de toda a Igreja. Ao rigor de vida e mortificação comunitária, a Santa quis unir o rigor e a mortificação pessoais.
De fato, a vida de oração requer, por si só, uma forte ascese interna e externa, fruto do controle mais absoluto das paixões. Trata-se de um trabalho pessoal que toda alma deve exercitar em si para dispor-se à prática da oração. E não há dúvida de que a Santa é muito exigente em matéria de mortificação; embora tenha um modo muito pessoal de dizê-lo, no fundo concorda plenamente com São João da Cruz, que deixou escrito: Amar a Deus quer dizer despojar-se e despir-se por Deus de tudo que não é Ele.[5] Por isto, também ela deixou escrito, e de modo não menos vigoroso: Decidi-vos, irmãs; vindes para morrer por Cristo, e não para viver folgadamente por Cristo. Persuade o demônio ser necessário tratar bem de si para guardar e cumprir as leis da Ordem. Tanto se deseja a observância e tão grande é o cuidado pela saúde, a fim de guardar e manter a Regra, que se morre sem a ter cumprido inteiramente um mês, e talvez nem um dia. Não sei o que viemos fazer aqui (C 10, 5). Isto para explicar com detalhes o que já havia apontado pouco antes como um axioma: Comodismo e oração são incompatíveis (C 4, 2).
Madre Teresa não é uma teorizante especulativa. Sabe e fala por experiência pessoal, como já nos explicou em Vida, Caminho e Castelo Interior, quer dizer, ao longo de todo o seu magistério. Só um exemplo: se no se Livro da Vida escrevera ... na generosidade e no amor se medirá o adiantamento e o progresso das almas, e não nos anos (V 39, 10), nas Moradas deixou escrito: Isto, irmãs, quero que procuremos alcançar, não a fim de nos satisfazer, mas para termos força no serviço de Deus... (7M 4, 12). Daí que o longo caminho da oração não possa ser percorrido sem mortificação, como ela mesma assinala: Aos pouquinhos, resistindo a nosso apetite e vontade própria, mesmo em coisas pequenas, iremos adquirindo a virtude até sujeitar inteiramente o corpo ao espírito (C 12, l).
Embora o campo da mortificação seja muito vasto, Santa Teresa está tão convencida de sua importância na vida de oração que não deixa de assinalar um único aspecto:
- desapego de todo o criado, interior e exteriormente (cf. C 8, 1-4);
- desapego de parentes e amigos: Mas se houver monja que deseje para sua própria satisfação entreter-se com os parentes, não sendo eles espirituais, tenha-se por imperfeita. Creia que não está desapegada, não está sã, não tem liberdade de espírito, nem goza de inteira paz, tem necessidade de médico. Se não renunciar a esses apegos, não sarar deste mal e não ficar boa, digo-lhe: não é para esta casa (C 8, 3). Isto com exceção, naturalmente, de pais e irmãos (C 9, 3).
- desapego de nós mesmos: Se cada uma não andar com grande cuidado, contradizendo a própria vontade, como se fora este o mais importante de todos os negócios, muitas coisas haverá para tirar essa santa liberdade de espírito (C 10, l), porque somos muito agarradas ao nosso eu e nos amamos excessivamente (C 10, 2), e é por aqui que devemos começar (cf. C 11, 1-5).
Também não se deve limitar ao que é externo, e sim dirigir-se igualmente ao interior, ou seja, à renúncia a nós mesmos e a nossas satisfações (cf- C 12, 2). A Santa é categórica: Tudo, ou ao menos quase tudo, depende do esquecimento de nós mesmas e de nossas comodidades. Quem deveras começa a servir ao Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a vida, depois de lhe ter dado a vontade. Que há de temer? (C 12, 2).
À primeira vista, esta exigência da Santa pode parecer um tanto excessiva, mas é preciso lembrar que escreve para suas filhas e que está em jogo toda a razão de ser da nova forma de vida religiosa que inaugura em São José a serviço do Esposo: Ou somos esposas de tão grande rei, ou não somos. Se o somos - que mulher briosa haverá que não participe mesmo a contragosto das afrontas feitas a seu esposo? Em suma, a honra ou desonra, tudo põe em comum. Pois bem, associar-se ao reino de Cristo e dele gozar sem querer partilhar suas desonras e ultrajes é disparate! (C 13, 2).
Portanto, o apostolado interior torna-se mais eficaz e frutífero mediante a oração e o sacrifício, que são os meios tradicionais sugeridos pela Igreja para tal fim (PC 7).
[3] Cf. acima, capítulo 1, nota 2.
[4] Cf. Conspectus Ordinis Carmelitarum Discalceatorum, Roma, 1979.
[5] Cf. Subida II, 5, 7.