6. O método teresiano da oração mental[2]

Santa Teresa, verdadeira Mestra de oração, não podia deixar de dar-nos um ensinamento positivo e concreto sobre o método de oração mental, já que foi uma autêntica pedagoga no mais exato significado da palavra. Por isso, procuraremos expor aqui o seu método, sobretudo aos que não têm muita familiaridade com seus escritos; ao fazê-lo, não nos limitaremos aos ensinamentos do Caminho de Perfeição, mas tentaremos completá-los com o que nos deixou escrito sobre o assunto em outras obras.

Em primeiro lugar, para entender bem o método pedagógico teresiano, é preciso recordar brevemente a experiência pessoal da Santa. Ela estava plenamente convencida de que já era vitoriosa quando conseguiu transformar sua vida de bagatelas e ninharias em vida de oração. A oração não só se assenta em seu carro fechado de fundadora, apoderando-se de todo o grupo que a acompanha, como também invade todas as suas tarefas domésticas – “Se é na cozinha, entre as panelas, que anda o Senhor” (F 5, 8) -, porque estava convencida de que o amor “deve ser visto não pelos cantos, mas no meio das ocasiões” (F 5, 15). Assim, esta oração-vida passa a ser um fator determinante que transfigura todo o modo de falar da Santa e o transforma em um meio de comunicá-la aos outros, introduzindo o leitor no âmbito do seu diálogo com Deus.

Esta atitude está presente de modo especial no Caminho de Perfeição, onde se propõe explicitamente a ensinar a suas filhas a oração e seu método pessoal, livro que se transforma em “seu manual de oração”.

Lendo atentamente este livro, podemos notar nele um duplo plano de formação: um pessoal e outro comunitário.

a. - Formação pessoal

Para a Santa Madre, toda vida de oração deve basear-se nestes pontos fixos ou princípios, a saber:

- Erguer os olhos para o alto, isto é, para a Igreja, porque a alma não está sozinha diante de Deus, mas inserida no mistério da Igreja.

- Como ou caminho é longo e árduo, a alma deve percorrê-lo abastecida de virtudes práticas: amor às irmãs, desapego de todas as coisas e humildade para caminhar na verdade.

- Começar esse caminho com “uma determinada determinação de não parar até chegar... venha o que vier, aconteça o que acontecer, trabalhe o que trabalhar, murmure quem murmurar, mesmo se nem sequer chegar lá, mesmo se morrer no caminho” (CE 35, 2).

Note-se que a Santa insiste, mais do que na virtude, na atitude de vida, uma atitude radical, extremamente volitiva e de empenho total. E justamente por conhecer muito bem, por experiência própria, as exigências e dificuldades da vida de oração, não teme enfrentar corajosamente as eventuais reações negativas de suas filhas, e quer partir de princípios claros e seguros.

A Santa Madre assegura que, uma vez que toma a decisão de entregar-se a Cristo, a alma conseguirá essa intimidade que é a finalidade da verdadeira oração mental, e garante categoricamente: “Concluindo, repito, tudo depende de nós. Quem quiser adquirir esse hábito, não desanime. Trabalhe por acostumar-se ao que ficou dito. Procure adquirir pouco a pouco o domínio de si mesma, sem se dissipar à toa. É ganhar a si para si e utilizar os próprios sentidos para a vida interior. (...) Nada se aprende sem um pouco de trabalho; por amor de Deus, irmãs, dai por bem empregada a diligência que nisto fizerdes. Esforçando-vos, tenho certeza de que dentro de um ano, ou talvez meio ano, o conseguireis, com o favor de Deus” (C 29, 8-9).

O método da Madre Teresa dispensa todo mecanismo artificial; sua força está em expor sua experiência pessoal e seu modo de organizar a oração. Insiste em que a oração é um trato de amizade com Deus, e que o interessante não é “a coisa”, e sim quem está com quem, porque “ficai sabendo, filhas, não é o fato de ter cerrada ou aberta a boca que faz a oração ser mental ou não. Se, enquanto digo uma prece, estou vendo e entendendo bem que falo com Deus, com advertência nas palavras que pronuncio, juntas estão a oração mental e a vocal. (...) Se quereis tratar a tão grande Senhor com a atenção que ele merece, é justo considerar quem é aquele a quem falais, ao menos para usar de cortesia.” (C 22, 1).

A Santa Madre chama este seu modo de “método de recolhimento”, e o expõe nos capítulos 26-29 do Caminho. Os dois primeiros tratam do aspecto mais importante: como introduzir Cristo em nossa oração. Nos outros dois, aborda um aspecto complementar, porém necessário: entrar dentro de nós mesmos por meio da nossa oração. Trata-se dos dois componentes do “recolhimento teresiano”. Ambos os elementos têm função bem definida: com o primeiro, simplificam-se as coisas; com o segundo, interioriza-se e se espiritualiza o ato, livrando o “encontro-diálogo” de tudo aquilo que não é oração. Aqui está o conselho da Madre:”(...) procurai achar companhia, pois estais sós. E que melhor companhia que a do próprio Mestre? Afinal, foi ele que nos ensinou a oração que ides rezar. Fazer de conta que tendes o próprio Senhor junto de vós e vede com que amor e humildade vos está ensinando. Crede-me, filhas, acostumai-vos quanto puderdes a estar sempre com tão bom amigo, trazendo-o assim presente. Ele verá que lhe tendes amor e andais buscando meios de o contentar. Não podereis, como se diz, afastá-lo de vosso lado, e ele nunca vos faltará. Será vosso auxílio em todos os vossos sofrimentos. É pouco ter sempre tal amigo a vosso lado?” (C 26, l).

O segredo de todo diálogo está em encontrar a pessoa adequada com quem falar. Assim são reduzidos ao máximo os mecanismos psicológicos da meditação, que podem ser resumidos em duas indicações: olhar para o amigo, e olhar que nos olha. Por isto, a Santa Madre insiste com suas filhas: “Não vos peço agora que vos concentreis nele formando muitos conceitos, nem que façais com a mente altas e delicadas considerações. Só vos peço que olheis. (...) Se estais alegres, contemplai-o ressuscitado. Só de imaginar como surgiu do sepulcro, alegrar-vos-á. (...) Se estais com sofrimentos e tristezas, considerai-o a caminho do Horto. (...) Outras vezes, olhai-o atado à coluna. (...) Ele porá em vós seus olhos tão formosos e compassivos (...) e olvidará suas dores para consolar as vossas. Só quer, em paga, que o busqueis e vos consoleis com ele e volvais a cabeça para o contemplar.” (C 26, 3-5).

E estas palavras, escritas em sua Vida, mostram que não se trata aqui de teorias sutis, e sim de experiência pessoal: “Tornemos agora ao que dizia sobre o pensar em Cristo atado à coluna. É bom raciocinar um pouco e pensar nas penas que ali teve. Por quem as sofreu, quem é e o que padeceu e com que amor as passou. Mas não se canse a alma em andar sempre buscando raciocínios, antes fique ali com ele, deixando calar o intelecto. Se puder, ocupe-se em ver que o Senhor a está olhando, faça-lhe companhia, fale, peça, humilhe-se, rejubile-se com ele e lembre-se de que não merecia estar ali” (V 13, 22).

O mesmo pensamento se repete no Caminho: “Chegai-vos para junto deste bom Mestre, muito determinadas a aprender o que vos ensina. Sua Majestade dar-vos-á as graças para serdes boas discípulas. Se não o abandonardes, Ele não vos abandonará. Reparai nas palavras que dizem aqueles lábios divinos ensinando o Pai-Nosso, e logo à primeira entendereis o amor que vos tem. Ver que seu mestre o ama não é pequena vantagem para o discípulo, e causa-lhe grande alegria” (C 26, 11).

A Santa Madre chama isto de “oração de recolhimento”, justamente “porque nela recolhe a alma todas as suas faculdades e entra dentro de si mesma com seu Deus. Aí seu divino Mestre, com mais brevidade que de nenhum outro modo, vem ensiná-la dando-lhe oração de quietude” (C 28, 4). Esse será depois o ponto de partida do Castelo Interior, cuja porta é a oração: orar é entrar, e o empenho em entrar coincidirá com os vários graus de intensidade da oração.

B. - Formação comunitária

A formação pessoal na oração tem um complemento importante na formação do grupo, quer dizer, de pessoas chamadas a viver em comunidade a experiência da oração através de um “caminho de oração”.

A Madre Teresa sabe muito bem, por experiência própria, que, no difícil caminho da oração, o andarilho solitário sucumbe quase que inexoravelmente às dificuldades do empreendimento. Daí a necessidade de procurar quem nos acompanhe, quem se una solidariamente à empreitada, porque “as coisas do serviço de Deus já andam tão negligenciadas que é preciso, aos que o servem, apoiarem-se uns aos outros para irem adiante, a tal ponto se consideram bons os divertimentos e as vaidades mundanas. (...) De mim só sei dizer que, se o Senhor não me tivesse revelado esta verdade e dado meios para tratar freqüentemente com pessoas que tinham oração, eu, de tanto cair e levantar, acabaria precipitando-me no inferno. Para cair havia muitos que me ajudavam, mas para levantar achava-me tão sozinha que hoje me admiro de não ter caído para sempre" (V 7, 22). "Por este motivo, aos que têm oração, especialmente no começo, eu aconselharia a procurar amizade e relacionamento com outras pessoas que se ocupem do mesmo exercício” (C 7, 20).

Esta dolorosa experiência foi a origem do carisma institucional da Madre Teresa: formar uma comunidade pobre e pequena em número que pudesse dedicar-se a uma vida de oração em seu primeiro conventinho de São José. O propósito fundamental era este: uma vida de oração em grupo, em cujo centro encontra-se Cristo Jesus, o Amigo: “Sua Majestade me mandou expressamente que trabalhasse nessa empresa com todas as minhas forças. (...) Disse-me que devia ser dedicado são José. Este glorioso santo nos guardaria a uma porta, Nossa Senhora à outra, e Cristo andaria conosco” (V 32, 11).

A Santa Madre lança-se à aventura e logo tem a imensa satisfação de ver realizado o seu sonho: “É para mim grandíssimo consolo ver-me aqui entre almas tão desapegadas. Sua preocupação é achar meios de irem adiante no serviço do Senhor. A solidão lhes dá tal consolo e felicidade, que sofrem com o pensamento de verem alguém. Os seus parentes muito próximos contribuem para mais as inflamar no amor de seu Esposo. Assim é que não vem a esta casa quem não trata disto, porque nem as contenta nem acha contentamento” (V 36, 26).

No Caminho exporá o seu pensamento de forma ainda mais precisa: “Todos sabem que sois religiosas e que tendes vida de oração. (...) Este é o vosso trato e modo de falar. Quem quiser ter relações convosco, aprenda-o, se não, guardai-vos de aprender vós o seu. Seria um inferno! Se vos julgarem grosseiras, pouco perdereis! Se hipócritas, ainda menos. Saireis ganhando, porque não virá procurar-vos senão quem souber a vossa língua” (C 20, 4-5).

Nisto a Santa é categórica: só neste contexto tem sentido a vida que ela pensou para o seu Carmelo. Os elementos materiais que julga indispensáveis (separação, clausura, pobreza) têm uma função espiritual, ou seja: criar um ambiente adequado, capaz de ambientar um sistema de vida no qual o grupo se transforme em escola de oração, em comunidade de orantes. A solidão ajuda a comunidade em seu encontro único com Deus, e o silêncio serve para intensificar o diálogo de todo o grupo com Deus. Tudo deve concorrer para ajudar a alma da pessoa e as almas do grupo a procurarem uma íntima conversa com Deus. Só então é eficaz o método de recolhimento.

[2] Esta breve exposição do método teresiano de oração não figura no original em inglês do presente livro, The Teresian Gospel (Darlington 1974), pois foi tema de outros Exercícios Espirituais dados a várias comunidade de monjas carmelitas dos EUA e da Inglaterra. Os editores da tradução italiana, Il Vangelo di Teresa, acharam oportuno acrescentá-la e, como o autor não pôde fazê-lo naquele momento, o Pe. Mario Caprioli, professor no Teresianum de Roma, foi encarregado do trabalho, que, por ser do nosso agrado, incluímos aqui.