5. As cinco leis fundamentais da amizade

Toda amizade autêntica e duradoura precisa basear-se em cinco elementos ou leis fundamentais, ou seja: encontro, conhecimento, amor, presença e conformidade de vontades. Vamos examiná-las brevemente.

a) Encontro mútuo - O contato pessoal é a lei básica de uma verdadeira amizade; os amigos têm de ser vivos, pois não se pode ter amizade com um cadáver. Isto quer dizer que os amigos devem participar da mesma condição: seres vivos, humanos, razoáveis. Aplicando-o à ordem sobrenatural, pode-se constatar facilmente que ninguém em estado habitual de pecado mortal pode ser chamado ou tido como amigo de Cristo, já que nesse estado está morto, e estar vivos é uma condição essencial para um encontro mútuo. Cristo goza de um estado de vida eterna e, portanto, quem quiser travar uma verdadeira amizade com Ele deve estar vivo espiritualmente mediante a graça santificante.

b) Mútuo conhecimento - Quanto mais os amigos se conhecem, mais íntima é a relação e mais profunda a confiança entre eles. O conhecimento da vida do amigo, de seu trabalho, interesses, ambições e projetos, cria um vínculo especial. Daí que toda autêntica amizade gera uma espécie de participação de interesses; e, se estes forem incompatíveis, nem será possível uma autêntica amizade, e a relação ficará limitada a uma comunhão muito superficial. Este mútuo conhecimento é, por si, muito lento e se alimenta de conversas cada vez mais freqüentes. Como Jesus, nosso amigo, é Deus, conhece-nos melhor do que nós mesmos podemos conhecer-nos; portanto, todos os nossos esforços devem concentrar-se em conhecê-lo o melhor possível. Tal é a razão fundamental das duas horas diárias de oração mental do Carmelo Teresiano: favorecer e aumentar o conhecimento de Jesus, meditando e assimilando tudo o que tem relação com Deus, com a salvação do gênero humano (que foi a razão da vinda de Cristo para morar entre os homens), todos os fatos de sua vida, pois assim vamos crescendo no seu conhecimento. A leitura e a meditação constante do Evangelho são a fonte que nos ajuda a conhecer melhor tanto a pessoa divina de Jesus como sua doutrina, e tal conhecimento aumentará em nós o amor por Ele.

c) Amor mútuo - Contudo, o mútuo conhecimento não esgota a riqueza nem a complexidade da amizade com Jesus Cristo; na verdade, é só uma preparação para o amor mútuo, porque, se não gerar amor, nosso conhecimento seria uma mera erudição histórica ou bíblica. Por isso, a Santa Madre teve muito cuidado em apontar repetidamente a suas filhas e a todos, que “a verdadeira meditação não consiste em pensar muito, e sim em amar muito” (4M 1, 7; F 5, 2). Em outras palavras: pensar não é suficiente, devemos amar; e isto é o que realmente distingue a verdadeira meditação cristã da reflexão ou meditação filosófica ou histórica. Porque, de fato, qualquer pessoa culta pode fazer uma meditação histórica sobre a Paixão de Jesus, por exemplo, examinando e comparando as quatro narrativas evangélicas, determinando bem os fatos históricos básicos, a identidade do Cristo histórico e os fatos fundamentais da Paixão, morte e ressurreição, etc. Mas isto não é oração mental, é só meditação histórica. Ao contrário: o mútuo conhecimento deve levar-nos a um amor mais vivo. Jesus já nos conhece tão bem que não precisa fazer-nos perguntas; somos nós que devemos esforçar-nos para assimilar tudo o que os Evangelhos nos revelam de sua pessoa e obra. Ele não nos chamou ao Carmelo só para fazer oração, e sim para que, por meio dela, cheguemos a um conhecimento mais completo de sua vida e obra e isto inflame nosso amor e estabeleça uma amizade cada vez mais íntima, já que o amor gera mais amor. Quanto melhor conhecermos e amarmos a Cristo, mais Ele viverá em nós e nos favorecerá com abundantes iluminações, tanto naturais como sobrenaturais. Quanto maior for o nosso apreço por tudo que Ele fez e sofreu por nós, mais nosso amor crescerá e se tornará total.

d) A presença do Amigo - Ponto essencial de toda verdadeira amizade é a presença do amigo, a que a Santa Madre alude em sua clássica definição que estamos explicando, quando diz “procurando estar a sós com quem sabemos que nos ama”. Os verdadeiros amigos não desejam outras pessoas a seu lado, ao contrário, desejam ser deixados a sós; esta é uma das características da verdadeira amizade e um de seus mais belos aspectos. Nas amizades humanas, às vezes surgem obstáculos porque as necessidades da vida impõem separações inevitáveis que impedem o gozo da recíproca presença, e não é fácil ter os amigos presentes sempre que queremos, nem, portanto, verificar o progresso de nossa amizade.

Estas limitações de nossas amizades humanas nada têm a ver com nossa amizade sobrenatural com Cristo. De fato, Ele (junto com a Santíssima Trindade) está sempre e ininterruptamente em nossas almas; além disso, por meio da Eucaristia, da comunhão eucarística, gozamos de sua presença real em nossas almas. A onipresença de Deus é um atributo divino que não depende de nós, e, mesmo se quiséssemos, não poderíamos “livrar-nos” dela. Obviamente, isto não é a mesma coisa que nosso desejo de estar sempre unidos a Ele; mas, se o desejarmos de verdade, Ele nos encherá de sua presença. Tal é a base fundamental do ensinamento tradicional da Igreja Católica a respeito da piedosa prática da presença de Deus; se o desejarmos, Ele estará sempre conosco.

A presença constante de Jesus em nossa alma é o grande segredo da nossa autêntica vida de oração, ao que a M. Teresa dedicou todo o capítulo 26 do Caminho, que todo religioso ou religiosa deveria aprender de cor, pois é realmente um autêntico Catecismo da oração mental. Quando esta presença do Amigo é constante em nossos pensamentos, em nossas palavras e em todas as nossas ações, podemos dizer que chegamos à união transformante. Como é natural, dada nossa natureza muito desajeitada e distraída, trata-se de um processo lento e muito exigente; essa graça não pode ser conseguida em um abrir e fechar de olhos, mas é uma meta acessível apenas com empenho e decisão.

e) Conformidade de vontades - Uma das condições mais importantes para conseguir uma perfeita amizade humana é a conformidade mútua das vontades. A Santa Madre alude a esta lei fundamental de toda amizade perfeita ao dizer: “Para ser verdadeiro o amor e duradoura a amizade, os gênios devem combinar” (V 8,5). Aplicando esta lei à amizade com Cristo, diz: “A porta (para esta conformidade de vontades) é a oração. Fechada esta porta, não sei como poderá conceder esses favores. Ainda que deseje entrar para deliciar-se com uma alma e deleitá-la, não haverá por onde. Ele a quer sozinha, pura e desejosa de receber suas graças” (V 8, 9). Daí que não possa haver uma amizade firme e duradoura sem comunicação e harmonização das pessoas e se ambas as vontades não participarem dos mesmos projetos e intentos. É óbvio que, quando falamos de nossa amizade com Jesus, não é Ele que deve adaptar-se à nossa vontade, mas nós que temos de esforçar-nos para nos adaptar à dele, começando por aceitar a vontade do Pai celestial, que enviou ao mundo o seu Filho Unigênito com uma missão bem concreta: “Para isto vim ao mundo... para fazer a vontade do Pai“ (Jo 4, 34); e já sabemos que a vontade do Pai ao nos enviar seu Filho foi a salvação de todo o gênero humano.

A conformidade das vontades é um dos aspectos mais difíceis da vida espiritual. Não se trata aqui de piedosos desejos ou doces palavras, mas de fatos: temos que demonstrar com os fatos que somos efetivamente instrumentos da obra redentora de Cristo e participantes de sua missão neste mundo; esta é a medula do aspecto eclesiástico da vocação cristã e religiosa. A conformidade de vontades é parte essencial da perfeição, com a qual não podem coexistir interesses diversos, já que, se não participarmos das mesmas idéias de nossos amigos e surgirem diferenças de interesses, o único resultado é a separação.

Santa Teresa foi uma amiga íntima de Jesus Cristo. Apaixonada por Ele até a loucura, quis dar-lhe sua vida para ajudar “no que estivesse ao nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-lo de novo, deixando-o sem ter onde reclinar a cabeça” (C 1, 2). Na verdade, se este primeiro capítulo do Caminho de Perfeição fosse retirado, não nos seria fácil entender uma só linha dos restantes 41 capítulos do livro. Este foi o objetivo de toda sua vida, desde a assim chamada “conversão definitiva”: ser uma amiga fiel e íntima de Cristo. Por isso, divinamente inspirada, criou na Igreja uma nova família religiosa em que a oração mental não é um mero exercício transitório de piedade, mas um novo modo de viver os votos religiosos. E para que nenhum de seus seguidores se engane, repete-o quatro ou cinco vezes: “Para este fim as reuniu aqui, este é o seu chamado, estas devem ser as suas atividades, estes devem ser os seus desejos, aqui suas lágrimas, estes os seus pedidos ...” (C 1, 5; 2, 2; 2, 8; 3, 2 etc.).

Este é um ponto que muito merece ser considerado: não estamos no Carmelo Teresiano para fazer duas horas diárias de oração mental; isto não seria nada original, pois muitas outras famílias religiosas as têm antes e depois dele. O que torna o carisma teresiano especial é que se trata de uma vida inteira entregue ao amor e serviço de Cristo em íntima e perpétua amizade, vida que deve ser regulada pelas cinco leis fundamentais de toda amizade, que acabamos de explicar.

Precisamente por isso decidiu-se a escrever um livro especial no qual explicaria de forma totalmente detalhada o seu método de oração mental, que pode ser legitimamente chamado de método teresiano de oração, que vamos resumir abaixo.