3. Paralelismo

O contexto da definição teresiana de oração mental evidencia com clareza que o verbo “tratar” implica todas as suas oito acepções mencionadas. Uma passagem do Caminho – além de muitas outras que poderiam ser citadas – bem o demonstra: “Voltando ao amor de umas para com outras, parece escusado recomendá-lo. Pois, que gente haverá tão grosseira, tratando-se sempre, vivendo na mesma companhia, sem outra convivência, outros tratos ou recreações com estranhos, que não tenha mútuo amor? Ainda mais entre nós, pois cremos que Deus ama as nossas irmãs e elas o amam, tendo deixado tudo por Sua Majestade. A virtude por si convida a ser amada e esta – com o favor de Deus, espero em Sua Majestade – sempre haverá nas irmãs desta casa” (C 4, 10). Como se pode perceber, expressões derivadas do verbo “tratar” são usadas duas vezes com as diversas conotações que destacamos no DRAE: falar, viver com, estar a sós com um amigo, ter intimidade, confiança, alegria, divertir-se, etc. E o que é digno de nota: estar convencidos de que Ele nos ama, o que, do ponto de vista teológico, é a essência dessa definição.

É verdadeiramente surpreendente que uma mulher sem letras tenha podido chegar a tão profunda compreensão da oração; mas a surpresa se atenua quando observamos que, na verdade, essa definição está baseada em sua leitura do Evangelho e nas várias cartas de São Paulo, e sobretudo, em sua experiência pessoal desse trato amistoso com Deus. Daí que convide todos a participarem da experiência, sobretudo e de modo especial, todas as almas que foram chamadas a fazer parte do seu Carmelo com este único propósito: amar e dialogar com Cristo.

A palavra diálogo/dialogar está muito na moda hoje em dia. Mas é preciso considerar que, aplicada à oração mental, não significa só conversar ou passar o tempo. Para que a oração possa ser chamada de diálogo, este deve estabelecer-se entre Jesus e a alma, baseado no fato de que foi Ele quem nos amou primeiro (cf. 1Jo 4,19) e que, portanto, é ”um diálogo de salvação”: precisamente porque Ele nos amou primeiro, fez com que fosse possível que o amássemos, e é somente o seu amor divino que possibilita o diálogo.

Com muita razão Karl Rahner apontou o grande equívoco de quem pensa que só uma grande força de vontade pode tornar-nos apropriados para a oração, já que, de fato, a força de vontade nada tem a ver com a oração, pois é só através da assistência do Espírito Santo que podemos amar a Deus e aprender a orar. Por isto, diz a Santa muito sabiamente que “a verdadeira oração não consiste em pensar muito, mas sim em amar muito” (4M 1, 7; F 5, 2). E “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5), ou, como diz o mesmo Apóstolo: ”A prova de que são filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama Abba, Pai!” (Gal 4, 6).

Baseando-se na etimologia de “Abba”, os estudiosos biblistas dizem-nos que essa palavra era usada para expressar a familiaridade e o afeto, é equivalente ao nosso ”papai”. E, se podemos dirigir-nos a Deus de modo tão familiar, é devido à inspiração do Espírito Santo. Porque, teologicamente falando, não há oração que possamos dirigir a Deus sem nossa união a Cristo pelo poder do Espírito Santo. Por isto, ao usar a mesma oração que Jesus nos ensinou, a Igreja diz, com gratidão: “ousamos dizer.” Por mais indignos que sejamos, foi Jesus que nos ensinou a dirigir-nos a Deus Pai como um menino a seu pai: “Abba, Papai.”

Por fim, a oração baseia-se fundamentalmente no fato de que foi o próprio Deus quem nos amou primeiro. Foi Ele quem nos ensinou a orar e, portanto, não temos necessidade alguma de aprender a orar com a ajuda de conferencistas ou professores: basta dirigir-nos ao Pai com a naturalidade da criança que há em cada um de nós. Se entendermos a oração de um modo natural e correto, compreenderemos bem o significado de nossa vida e faremos todos os esforços necessários para crescer nesta amizade com Cristo. Assim compreenderemos também por que a Santa Madre não recorre a uma terminologia técnico-teológica para se referir à oração, mas fala em termos de uma relação afetiva e existencial.