Para a Santa Madre, a pedra de toque de todo o desenvolvimento da vida de oração é o grau de intimidade com Cristo que se alcança por seu intermédio. De fato, para ela não há um único momento da vida espiritual religiosa que não esteja vinculado ao amor e à imitação de Cristo, quer se trate "dos principiantes, dos adiantados ou dos perfeitos, segundo a divisão tradicional dos autores espirituais de seu tempo.
Aos principiantes diz que é de extrema importância habituar-se a considerar Cristo como nosso modelo... Se perderem o guia, que é o bom Jesus, como acertarão o caminho? (...) O próprio Senhor diz que é caminho (6 M 7, 6). É excelente maneira de progredir, e em pouco tempo (V 12, 2); e a incapacidade de ter Cristo como modelo é a razão pela qual muitas almas não aproveitam mais, nem adquirem grande liberdade (V 22, 5). Com estas palavras, a Santa Madre referia-se aos que não levavam suficientemente em conta as exigências de nossa natureza humana e alertavam contra o uso de imagens ou estampas ou qualquer outro meio sensível que os ajudasse no recolhimento; porque, na verdade, é impossível viver nesta vida como se fôssemos anjos. O homem precisa da ajuda desses meios para tornar Cristo presente em sua vida, pois, via de regra, nossos pensamentos precisam de alguma coisa sensível em que se apoiar (cf. V 22, 3).
Aos adiantados ou proficientes, diz: Para fazer progressos, esforçai-vos em ter sempre Cristo a vosso lado (V 27, 4). E de modo mais concreto: Dou por adiantado quem se esforça por viver nesta valiosa companhia, aproveitando muito dela (V 12, 2). A característica deste estado de adiantados é o aumento das virtudes, e, para obtê-las, não há melhor modo do que tomar Cristo como modelo. Isto é essencial, quer sejamos chamados a suportar provações e tribulações, quer sejamos chamados a crescer na humildade e nas virtudes.
Aos perfeitos diz que, quanto mais à frente estiverem no caminho da perfeição, mais devem esforçar-se para estarem unidos a Cristo. Reage forte e corajosamente contra a opinião de alguns teólogos do seu tempo segundo os quais a alma que já chegou a um alto grau de perfeição não deve mais retornar à Humanidade de Cristo, pois isto poderia ser antes um obstáculo (V 22; 6M 7, 5). Para a Santa Madre, esta doutrina era diabólica, porque ela estava plenamente convencida de que a presença de Cristo a nosso lado, longe de ser um obstáculo, sempre será uma ajuda eficaz, como foi para os seus Apóstolos. Por isto, aconselhava ao seu amigo dominicano García de Toledo: De modo que vossa mercê, senhor, não queira outro caminho, ainda que esteja no cume da contemplação. Por aqui irá seguro. É por meio deste Senhor nosso que nos vêm todos os bens. Ele o ensinará. Contemple sua vida, porque não há melhor modelo. Que mais podemos desejar, do que ter a nosso lado tão bom amigo? Não nos abandonará nas dificuldades e nas tribulações, como fazem os do mundo. (V 22, 7).
A Santa frisou de tal modo a importância da sagrada Humanidade de Cristo na vida de oração que chegou a escrever: Bem-aventurado quem o amar deveras e sempre o trouxer junto de si. (ibid). Esta é realmente uma das afirmações fundamentais que sintetizam a doutrina da Madre no que diz respeito à Humanidade de Cristo em nossa vida. Já havia escrito e repetido que toda a finalidade do seu livro era ensinar a desapegar-se do mundo e dedicar-se totalmente a Cristo, e teve a habilidade de sintetizar toda a sua doutrina em uma breve frase que merece ser escrita com letras de ouro em todos os seus conventos como programa de vida de toda alma carmelitano-teresiana, pois vem a ser como que a recapitulação de todo o Caminho de Perfeição:
O que importa para nós é que nos entreguemos com total determinação, dando-lhe plena liberdade, para que ele possa pôr e tirar à vontade como propriedade sua. E Sua Majestade tem todo o direito, não lhe neguemos o que exige de nós. Como não nos constrange, aceita o que lhe oferecemos. Contudo, não se dá de todo enquanto não nos dermos de todo a Ele (C 28, 12).
Tudo isto é fácil de dizer, certamente, mas para colocá-lo em prática é necessária toda uma vida. Porque, embora seja verdade que tudo se torna mais fácil com um amigo fisicamente presente, este nosso Divino Amigo é um Deus escondido, presente apenas através da fé. E é a fé, junto com uma confiança profunda, que nos dará forças para vencer todas as dificuldades. É preciso ter a ousadia de dar um salto no escuro, como uma criança que, em uma casa incendiada, atira-se da janela nos braços do seu pai que a chama. É verdade que a fumaça da ignorância obscurece nossa clara visão de Deus, mas Ele está presente e nos vê. Se seguirmos este ensinamento e nutrirmos uma confiança sem limites, podemos ter a certeza de que iremos parar em seus braços.