Santa Teresa explica como é possível adquirir essa contínua consciência de Cristo morando em nossas almas. É muito simples chegar a esta persuasão, como ela nos ensina no Caminho (C 26, 9). Começa-se com uma imagem de Cristo diante dos olhos, sempre que nos coloquemos em oração, e sobretudo quando nos assaltem as distrações; faz-se um ato de fé e um esforço em concentrar nele os nossos pensamentos. Deste modo, pouco a pouco, adquire-se um hábito mediante o qual a imagem de Cristo vai se fixando na imaginação e na memória até não ser mais necessária. É então que, através da fé e do amor, essa imagem imaginada de Cristo transforma-se dentro de nós em algo vivo, de forma que, quanto mais a alma se exercita nesta prática, mais facilmente sentirá sua presença. Isto não afeta só a fé, mas também a experiência pessoal, e é um meio muito eficaz, que nos ajuda a perseverar no cumprimento das obrigações da vida consagrada.
Assim fez a Santa Madre, e é extremamente interessante constatar a maneira como, da simples visão de uma imagem de Cristo, ela passa a se sentir tão impressionada com a beleza de seus olhos que, a partir daí, modifica-se nela a idéia do inferno que já consistia neste mero fato: ver que os olhos de Cristo, tão belos e graciosos, olhavam a pessoa com cólera, em vez de amor. Todas as visões anteriores do inferno modificaram-se neste sentido.
Foi através desta contínua presença do amigo Jesus a seu lado, que a Santa Madre adquiriu o mesmo grau de confiança e abandono nEle como o experimentaram os Apóstolos, que tiveram a felicidade de conviver com Jesus, quando estava na terra. Assim, é impressionante encontrar em seus escritos, como fruto de sua experiência pessoal, expressões como estas: Nossas vidas estão escondidas em Cristo (Gal 2, 20); que nossas vidas já não são mais nossas, e sim de Cristo (sextas e sétimas Moradas). Já nos havia dito em sua Vida que a sagrada Humanidade de Jesus Cristo é o melhor meio de agradar a Deus e conquistar sua amizade, e que nela encontramos o melhor remédio para toda nossa angústia, fraqueza e tibieza:
Vendo-vos junto de mim, logo vi todos os bens. Quando considero a atitude que mantivestes diante dos juízes, não acho provação difícil de suportar. Com tão bom amigo presente, com tão valoroso capitão, que em matéria de padecer foi o primeiro, tudo se pode tolerar. Serve de auxílio e dá forças. Nunca falta. É amigo verdadeiro. Vi depois, e sempre tenho visto claramente, que para agradarmos a Deus e para que nos conceda favores, deseja ele que os recebamos por intermédio desta humanidade sacratíssima, na qual Sua Majestade (Deus Pai) declarou ter posto suas complacências (V 22, 6).
Mas é preciso ver com toda clareza que a Santa não se detém na Humanidade de Jesus Cristo como em um mero atributo; o que lhe importa é a pessoa de Jesus, centro de toda vida cristã. Vários teólogos e escritores empenharam-se em demonstrar que a espiritualidade teresiana é cristocêntrica, o que, em certo sentido, me parece supérfluo, já que, se não fosse assim, nem seria cristã, porque para todo cristão, e não só para a Santa, Jesus é o Tudo. O que, contudo, é oportuno destacar é a doutrina da Santa sobre o seu total abandono em Cristo, sua generosidade e entrega a Ele.