A Santa Madre Teresa foi uma pessoa muito afetiva, e todo o Caminho demonstra esse caráter de diálogo afetuoso e amoroso com suas filhas espirituais e com Cristo. Mas antes que de títulos e conceitos, trata-se de amor, e de um amor demonstrado por fatos. Ela mesma confessa que só podia imaginar Cristo Jesus como homem (V 9, 6), o que nos parece muito razoável, porque embora Deus seja Espírito, nós não somos capazes de representá-lo como tal. Contudo, a representação iconográfica de Deus como venerável ancião de cabelos brancos e longa barba não nos ajuda muito em nossa meditação. São João afirma categoricamente: Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou (Jo 1, 18). Ou, como diz São Paulo: Ele é a imagem de Deus invisível (Col 1, 15).
A Madre Teresa deu-se conta de tudo isto. Sentiu a presença de Cristo no decorrer de sua vida. Diz textualmente: Estando em oração no dia do glorioso São Pedro, vi Cristo junto de mim. Nada vi com os olhos do corpo nem com os da alma. Senti e tive a impressão de o ter ao meu lado. Por íntima convicção via que era ele quem me falava. Muito longe de ter conhecimento de semelhantes visões, fui a princípio acometida de grande temor e só fazia chorar. Contudo, ouvindo do Senhor uma única palavra de segurança, ficava em meu estado habitual, tranqüila, consolada e sem temor algum. Cristo parecia andar sempre ao meu lado. Sentia muito claramente estar ele sempre à minha direita e presente a todos os meus atos. Não via em que forma, por não ser visão imaginária. Não havia ocasião em que me recolhesse um pouco, ou não estivesse muito distraída, que não o sentisse junto de mim (V 27, 2).
A Madre Teresa não entende cabalmente como pode ser isto, e assim escreve ao seu confessor García de Toledo: Não sei como pode ser isto, só sei que é verdade; ele, como teólogo que é, deve me explicar. O Pe. Garcia de Toledo deve ter explicado. Como bom teólogo, não podia deixar de saber que há dois tipos de visões: imaginárias e intelectuais. A intelectual é a mais iluminadora para a alma e, ao mesmo tempo, a mais difícil de ser imitada pelo demônio; desse tipo foi esta visão da Madre. Não chegou até nós a explicação do letrado dominicano, mas sua substância poderia ter sido esta ou parecida: trata-se de um processo psicológico. A graça nunca vai contra a natureza, mas anda sintonizada com ela, e Deus se comporta conosco como com seres racionais e inteligentes. Assim, pois, embora as visões intelectuais sejam de ordem mística e possam ser infundidas na alma sempre que Deus desejar, existe também um trabalho de preparação que nós mesmos podemos fazer. De fato, tais visões intelectuais são mais freqüentes do que podemos imaginar. Através da inabitação da Santíssima Trindade em nossas almas, a luz da graça divina ilumina nosso entendimento. No entanto, tais iluminações interiores ou espirituais não são sempre e necessariamente acompanhadas de fenômenos místicos, como no caso de Santa Teresa; uma pessoa simples e iletrada também pode ser iluminada pelo Espírito Santo, que sopra onde quer, sem estar necessariamente submetido aos esquemas dos "letrados" ou teólogos.