1. Ladainha cristológica

Seria muito interessante elaborar agora uma ladainha completa dos títulos e apelativos com que a Santa Madre dirige-se a Cristo. Embora não seja completa, aqui está uma lista dos principais apelativos com que designa Jesus Cristo em seus escritos: Bom Jesus (C 35, 3; 37, 4), Bem acima de todo outro bem (V 21, 5), Mediador nosso (V 21, 11), Filho de Deus (V 21, 11; C 21, l), Onipotente (V 28, 9), Beleza excelsa (V 37, 4), Senhor (V 37, 1; 22, 6), Redentor nosso (C 3, 8), Salvador nosso (1 M 2, 4), Cordeiro amantíssimo (C 3, 8), Irmão (C 27, 2), Modelo (C 36, 8), Amante verdadeiro (C 7, 4), Caminho e Guia (4 M 7, 6), Embaixador nosso (C 16, 7), Gloria dos anjos (C 32, 3), Realizador onipotente de milagres (V 8, 6; C 34, 8), Deus e Homem (V 29, 9; 37, 5), Vencedor do demônio (C 13, 7; 7 M 2, 8), Grande Rei (7 M 2, 8), Esposo adorável (V 36, 26), Rei sábio e onipotente (5 M 2, 2), Mestre divino (V 12, 6; C 42, 6), Príncipe do amor (C 6, 9; V 22, 6), etc.

Todos esses títulos são muito belos e sugestivos, mas há um que aparece com mais freqüência no Caminho e, portanto, merece uma menção à parte: o título de Amigo. Já no princípio do livro, ao procurar explicar o motivo que a levou a fundar São José de Ávila, diz-nos com toda clareza: “Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance.” (C 1, 2).

Assim, pois, a imagem de Cristo como Amigo já está presente desde as primeiras páginas do livro, imagem tão gravada em sua alma que ela não se cansa de repeti-la sempre que a oportunidade se apresenta. Eis aqui alguns exemplos bem expressivos:

- “Fazei de conta que tendes o próprio Senhor junto de vós e vede com que amor e humildade vos está ensinando. Crede-me, filhas, acostumai-vos quanto puderdes a estar sempre com tão bom Amigo, trazendo-o assim presente. Ele verá que lhe tendes amor e andais buscando meios de o contentar. Não podereis, como se diz, afastá-lo de vosso lado, e ele nunca vos faltará. Será vosso auxílio em todos os vossos sofrimentos. É pouco ter sempre tal amigo a vosso lado?” (C 26, l).

- “Ele é um amigo sempre compreensivo” (Con 2, l), um amigo sempre presente na Eucaristia (C 34, 2), um amigo dos contemplativos (C 18, 1-2), “o verdadeiro e único amigo e esposo” (V 22, 6), o amigo por excelência (V 37, 6); enfim, um amigo tão bom “que ninguém o tomou por amigo sem ser amplamente recompensado” (V 8, 5). Este apelativo é profundamente evangélico. Foi, de fato, o próprio Senhor que assim considerou os seus apóstolos: “Já não os chamo ser­vos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai“ (Jo 15, 15).

Foi, sem dúvida, a assídua meditação do Evangelho a autêntica fonte onde a Santa Madre bebeu e assimilou a mensagem da amizade divina. É muito importante levar isto em conta, porque um ponto tão básico no conceito teresiano de oração como o da amizade com Jesus Cristo é indispensável para entender sua doutrina da oração.