Depois de examinar o Caminho de Perfeição tanto em seu aspecto externo como em seu conteúdo, estamos em condições de apreciar muitas coisas a seu respeito. Uma, sobretudo, parece clara e até evidente: embora o livro dê a impressão de ser um tanto desorganizado, espontâneo e destituído de um esquema preciso, a Santa Madre tinha em mente uma mensagem bem concreta a transmitir a suas filhas e seguidores de sua vida religiosa, ela que foi chamada pela Igreja de Regis superni nuntia, Embaixadora do Rei Celestial.[1] Essa mensagem é o que poderíamos chamar, adotando um termo hoje tão em voga, de o "carisma teresiano" ou (com a devida reverência) o Evangelho de Teresa. Porque, assim como os Evangelhos apresentam-nos não apenas a mensagem da boa nova de Jesus, mas também a divina pessoa de Jesus Cristo Nosso Senhor que a encarna, assim também embora de forma infinitamente inferior - o Caminho de Perfeição oferece-nos não só uma mensagem válida para suas filhas e seguidores, mas para todos os cristãos, como também uma pessoa viva que a encarnou: a Santa Madre Teresa de Jesus.
O centro e coração deste livro é a divina pessoa de Jesus Cristo. É ele que realmente nos fala através de Teresa, sua embaixadora, a quem confiou uma mensagem básica e fundamental para todo cristão, a saber: que Ele, Jesus e ninguém mais, é a única pessoa que verdadeiramente importa, e todo o resto não tem autêntica relevância em nossas vidas; Ele, Jesus, e ninguém mais, é o centro e coração do livro. Ele, Jesus, é o Tudo: Deus, Pai, Redentor... e o Amigo. Por isto ela escreveu, divinamente inspirada:
"Tudo o que vos tenho aconselhado neste livro tem por fim aquele ideal que consiste em darmo-nos totalmente ao Criador, identificar nossa vontade com a sua e desapegarmo-nos das criaturas. Já tereis compreendido o muito que isto nos importa. Não quero insistir mais." (C 32, 9). É praticamente o mesmo que dissera pouco antes: "O que importa para nós é que nos entreguemos com total determinação, dando-lhe plena liberdade, para que ele possa pôr e tirar à vontade como propriedade sua. E Sua Majestade tem todo o direito, não lhe neguemos o que exige de nós. Como não nos constrange, aceita o que lhe oferecemos. Contudo, não se dá de todo enquanto não nos dermos de todo a Ele." (C 28, 12).
Tal foi, na verdade, a única preocupação da Santa Madre e o ponto fundamental de todo o livro que, mais do que um livro de lógica ou dialética, é um livro de vida. Esta fundamental "lógica de vida" deve ser atribuída ao fato de que, desde o final de 1554 (ano de sua "conversão"), ela tudo abandonara por Deus; a partir daí, Jesus foi seu único amigo. Por isto, de agora em diante, ela não quer mais cuidar de obrigações humanas, freqüentar os locutórios do mosteiro nem permitir-se outras distrações, colocando Jesus acima de qualquer outro interesse até que se tornasse seu Tudo, fazendo-lhe a entrega total de si mesma. Nosso Senhor, por sua vez, recompensou seus esforços com favores singulares, graças e iluminações proporcionais à generosidade que ela lhe demonstrava, único modo de explicar como uma pobre mulher sem letras foi capaz de escrever um livro tão esplêndido.
Foi então, ao decidir adotar aquele novo gênero de vida, que resolveu mudar também o seu nome leigo de Teresa de Cepeda por Teresa de Jesus. E embora seja verdade que tal mudança não é exclusivamente sua (antes dela, outros santos já haviam feito o mesmo), um fato é incontestável: a partir daí, tornou-se a enamorada de Cristo, completamente submissa a Ele, em uma entrega total e incondicional, um novo gênero de vida consagrada que ofereceu generosamente a todos os que quisessem segui-la.
Não seria correto dizer que a Madre Teresa tenha amado mais a Jesus do que todos os outros santos, pois este é um mistério oculto que só Deus conhece. O que, contudo, é lícito afirmar é que, para suas filhas e filhos espirituais, o modo teresiano de entrega é o mais belo e inspirado. As expressões que a Madre usa ao falar de Jesus são tão comoventes, pessoais e impregnadas de um total abandono de si mesma, que não cabe dúvida alguma de que recebeu inspirações especiais do próprio Jesus Cristo para saber pôr em prática e conduzir outros pelo mesmo caminho.
[1] Cf. Breviarium O.C.D., 15 out.: Hymnus ad Vesperas.