Assim como o método mais simples e prático de visitar um museu, uma catedral ou uma livraria é seguir seu guia ou catálogo, o método mais fácil de ter uma idéia do conteúdo de um livro é consultar o índice de capítulos. O que acontece é que, ao tentar fazer isto com o Caminho de Perfeição, o leitor logo percebe que tem nas mãos um livro cuja fisionomia é toda particular. A primeira impressão é que está diante de um livro desorganizado, sem ordem ou lógica.
De fato, o que suas filhas haviam pedido à Madre era que lhes escrevesse algo sobre a oração. Se agora dermos uma olhada no índice, veremos que o livro, em sua segunda redação, (Ms. de Valladolid) tem 42 capítulos, e é preciso chegar ao capítulo 19 para ler: "Que começa a tratar da oração." Foi uma das tantas distrações da Madre? De modo algum. Seu propósito era não somente falar da oração, e sim de uma vida inteira de oração, e sabia muito bem que esse gênero de vida exige um ambiente sem o qual é impossível. Tal era o carisma teresiano que o Espírito Santo queria oferecer à sua Igreja, não um mero exercício piedoso que ocupa um pouco de tempo na vida cotidiana. Por isto escreve quase no início do livro: "Foi sobre a oração que pedistes alguns conselhos. Em paga do que eu vos disser, peço-vos que observeis e leiais muitas vezes, de boa vontade, o que escrevi até aqui. Antes de me referir ao interior, isto é, à oração propriamente dita, direi algumas coisas necessárias às que pretendem ir por este caminho, e tão necessárias que, mesmo sem serem almas muito contemplativas, poderão progredir rapidamente no serviço do Senhor. Ao invés, é impossível serem grandes contemplativas se negligenciarem essas recomendações, e, quem se tiver nesta conta, estará muito enganada. (C 4, 3).
Mulher prática e com longos anos de experiência, sabe muito bem que, para estabelecer esse gênero de vida, é preciso rodeá-la de uma atmosfera adequada - assim, como introdução ao tema dedica dezoito longos capítulos aos requisitos absolutamente necessários para tanto.