O primeiro manuscrito do Caminho (códice de El Escorial) não tinha título algum, mas apenas: Este livro contém avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá às suas filhas e irmãs, religiosas... Na segunda redação (códice de Valladolid), aparece como título: Livro chamado Caminho de Perfeição, mas é pouco provável que a letra seja da mão da Santa Madre, parece antes uma imitação. Quando a Santa se refere a este escrito, chama-o também de livrinho pequeno (F 7, 1) ou livrinho,[5] em comparação com o livro de sua Vida, que chama de o livro grande, por ser mais volumoso. Também o denomina, pelo menos uma vez, o livro do Pater noster,[6] sem dúvida porque o comentário da oração dominical ocupa grande parte do mesmo.
De qualquer maneira, embora o título Caminho de Perfeição do manuscrito de Valladolid não fosse de sua pena, não resta dúvida de que já tinha tal título em seu pensamento antes mesmo de escrever a obra. Assim, por exemplo, escrevera na Vida: "Algum alívio e consolo parece que me dá o relacionamento com pessoas nas quais encontro iguais desejos, acompanhados, bem entendido, de obras. Sim, obras, porque há indivíduos que se têm em conta de desprendidos de tudo e chegam a apregoa-lo. De conformidade com o seu estado, assim deveria ser, pois decorreram muitos anos desde que começaram a trilhar o caminho da perfeição (V 21, 7).
Para a Santa, a palavra caminho era um termo muito comum e certamente não original, pois figurava no título de alguns livros espirituais da sua época. Assim, por exemplo, foi impresso em 1547 para citar só um caso - em Alcalá um livro do agostiniano ir. Luís de Alarcón intitulado Caminho para o Céu, livro que a santa provavelmente leu, já que foi um sucesso de vendas, reeditado poucos anos depois em Granada; assim, podemos supor que o termo "caminho" era de domínio popular no campo da espiritualidade.
Quando a Santa falava do caminho da oração chamava-o de "caminho real" (V 35, 13), "caminho largo e real" (V 35, 14), nome muito expressivo, se considerarmos o sistema de comunicações então existente na Espanha. Como se sabe, na Espanha do século XVI, um caminho ou estrada - real pertencia a todos e ninguém era proibido de trilhá-lo; em compensação, havia outros caminhos privados que não podiam ser utilizados sem autorização especial, sobretudo no caso de pastores com rebanhos infectados por doenças contagiosas. Assim, portanto, ao chamar a oração de "caminho real", a Madre quer indicar que se trata de um caminho aberto e acessível a todos, homens e mulheres, que desejam unir-se com Cristo. É uma metáfora, sem dúvida, porém muito expressiva e até audaciosa à época, aplicada à oração mental. Vejamos uma breve lista capaz de demonstrar que se tratava de termo e metáfora muito comuns na mente da Madre Teresa e com grande variedade de significados:
Caminho de verdade (V 1, 4), Caminho de virtude e religião (V 7, S), Caminho do céu (V 8, 5; 5M 3, l), Caminho da cruz (V 11, 5; 15, 13; 20, 15), Caminho de oração mental (V 11, 3; C 21, 6; F 4, 3), Caminho da sagrada humanidade de Cristo (V 22, 7), Caminho de trabalhos e tribulações de Cristo (C 18, l), Caminho espiritual (V 28, 18), Caminho de bênçãos e graças espirituais (6M 9, 14). Todos estes exemplos - que facilmente poderiam ser mais numerosos demonstram-nos com clareza que, embora supondo que não tenha sido dado pela própria Santa, o título não pode, em hipótese alguma, ser considerado estranho à sua mentalidade e ao seu vocabulário.
Assim fica explicado como, quando e quem escreveu este livro. Foi escrito exclusivamente para suas filhas da família religiosa por ela fundada e em virtude de sua solicitação insistente, se bem que não haja dúvida de contém coisas muito úteis para todo cristão que quiser servir e amar a Jesus Cristo.
[5] Cf. Carta de 10/2/1577, n°5 e 8.
[6] Carta de 2/1/1577, n°8.