Quem sugeriu à Madre Teresa que escrevesse este livro? Foi uma idéia fortuita ou antes algo que ocorreu espontaneamente a seu vivo engenho? De início, a Santa diz-nos que o escreve cedendo aos insistentes pedidos de suas filhas (Prólogo. 1). Tal insistência provinha, não há dúvida, da excelente impressão que nelas haviam produzido suas palavras nos capítulos conventuais. Isto nos conduz diretamente a ligar as origens do Caminho a suas Constituições primitivas. De fato, em um de seus parágrafos em que são detalhadas as cerimônias do capítulo conventual, figura: Então (...) levantar p. 55 do original, VER CONSTITUIÇÕES. [2]
Segundo esta passagem, nada tem de estranho que a Santa lhes dirigisse a palavra muitas vezes nessas palestras de capítulo (sobretudo durante o seu priorado de Ávila em 1563 - 1567) e que as irmãs quisessem ter à mão ensinamentos tão básicos para sua vida de Carmelitas. Sendo a Madre tão fiel na observância de todos os pontos de suas Constituições, não há dúvida de que cumpriria também este. E o fato de isto não ser mera suposição é demonstrado por várias testemunhas que depuseram em seu Processo de canonização, que afirmam o quanto ela era eloqüente quando se dirigia às irmãs exortando-as a viverem fielmente o novo gênero de vida religiosa.
Assim, por exemplo, Maria Bautista, sua sobrinha, mais tarde Priora de Valladolid, fala-nos da eficácia com que a Madre incentivava as irmãs, através de suas exortações capitulares, a colocarem em prática o seu desejo de servir ao Senhor.[3] Outra testemunha afirma: Quando fazia capítulos às monjas ou algumas exortações, deixava-as com grande admiração e muito fervorosos desejos de servir a Deus. Particularmente, uma manhã da Calenda, véspera do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Madre fez para todo o convento uma palestra tão eficaz e tão maravilhosa que todas diziam, em uníssono, que o mais douto e mais santo do mundo não poderia ter dito as maravilhas que dela tinham ouvido.[4]
Tendo em mente, por um lado, esses testemunhos e, por outro, o fato de que a Madre não havia tratado explicitamente em suas Constituições do propósito ou finalidade do gênero de vida que suas filhas iam buscar em seu mosteiro, é muito razoável pensar além de que assim indicam várias delas - que lhe tivessem pedido com insistência que lhes deixasse por escrito tudo que lhes dizia nas palestras. Pedida e obtida a autorização de seus confessores, por fim decidiu-se a escrever algo sobre a oração e sobre as razões que a tinham levado a fundar o pequeno convento de São José. Esta foi a origem do Caminho de Perfeição.
Se, fora estes testemunhos, dermos agora uma olhada no conjunto
do Caminho e o compararmos aos 14 capítulos de suas Constituições
primitivas (cujo texto foi escrito em Ávila antes de 1567, ano em que
as apresentou e foram aprovadas pelo Superior Geral da Ordem, Pe. Rubeo) comprovaremos
que mal se pode dizer que haja um ponto delas que não seja comentado
no Caminho. Da comparação de ambos os textos, conclui-se que
este último escrito é, de certo modo, um comentário espontâneo
a suas Constituições primitivas, embora não em sentido
literal, ponto por ponto, mas antes no sentido vital com que a Santa sempre
tratava do que tinha bem dentro do coração.
[2] Cf. Constituições primitivas (1563-1567), cap. IX. Sobre o tema das Constituições da Santa, ver Otílio Rodriguez, El testamento teresiano, in Monte Carmelo 78 (1970) 11-83.
[3] Cf. BMC 19, p.43
[4] Assim declara Casilda de Padilla nos Processos de 1610 (BMC 20, 419). Podem-se ver outros testemunhos em BMC 18, 166 e BMC 19, p.12, 35, etc.