UM OLHAR INTERNO SOBRE O CAMINHO DE PERFEIÇÃO

Do nosso olhar externo sobre o Caminho conclui-se que, mais do que de um livro, trata-se da própria pessoa da Madre Teresa que fala e doutrina suas filhas. No entanto, não podemos esquecer que a própria autora, nas observações preliminares, chama-o de livro: “Este livro contém avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá às suas filhas e irmãs, religiosas dos Mosteiros da Regra Primitiva de Nossa Senhora do Carmo, os quais fundou com a proteção de Nosso Senhor e da gloriosa Virgem Mãe de Deus, Senhora Nossa.” E, de fato, é o único de seus escritos em que se preocupa em “ensinar” às suas filhas, pois não trata de si mesma nem de seus problemas espirituais, mas “quero aconselhar-vos e, até posso dizer, ensinar-vos o modo de rezar vocalmente. Assim me é lícito na qualidade de Mãe, conferida pelo ofício de Priora. Quando rezais, é justo entender o que dizeis” (C 24, 2).

Esta consciência do seu direito e obrigação, como Madre Fundadora e Priora, de ensinar a suas filhas o novo gênero de vida religiosa que abraçaram, fazem do Caminho uma obra didática única entre seus inspirados escritos. Abramos, pois, o livro e procuremos responder às perguntas que costumam ser feitas sobre qualquer livro: quem o escreveu, quando, onde e para quem foi escrito.

Não há sombra de dúvida de que Madre Teresa o escreveu, pois hoje, a quatro séculos de distância, os seus manuscritos autógrafos encontram-se em perfeito estado de conservação .[1]

Quando e onde foi escrito pode ser determinado com algum grau de certeza. A primeira vez, foi escrito em Ávila, instada por suas filhas de São José, provavelmente em torno de 1566; a segunda, no ano seguinte, levando em conta as supressões e correções feitas no primeiro original pelo Pe. Garcia de Toledo. São datas aproximadas, mas bastante aceitáveis.

O que não passa de suposição é determinar se, ao escrevê-lo, a Madre teve uma espécie de intuição profética, pois é difícil verificar se imaginava que o número de suas filhas aumentaria tanto em tão pouco tempo. Uma coisa parece certa, e é que ela percebeu a necessidade de deixar bem clara qual era a finalidade daquele gênero de vida na Igreja. E não só quis deixá-lo por escrito, como também se esforçou para que o livro fosse difundido em cópias e, mais tarde, impresso a fim de evitar que, com acréscimos e omissões, o seu propósito acabasse falseado. Uma iniciativa de tal gênero parecia bem difícil em seu tempo, especialmente em se tratando de um livro sobre a oração, e, ainda por cima, escrito por uma mulher. Mas isso foi possível graças à generosidade e compreensão de Dom Teotônio de Bragança, que mandou edita-lo nas gráficas de Lisboa em 1583, pouco menos de um ano depois da morte de sua autora.

[1] Como se sabe, a primeira redação do Caminho é conservado na Biblioteca de El Escorial; o manuscrito da segunda redação, nas Carmelitas de Valladolid, e a cópia que serviu para a edição de Évora (1583), com correções da Santa, está guardada nas Carmelitas de Toledo.