Perguntemo-nos, pois, de modo claro e preciso: o que é, na verdade, o Caminho de perfeição? É só um livro? Decididamente não, pelo menos no sentido técnico da palavra.
Em primeiro lugar, porque não tem um título preciso, já que começa com uma espécie de introdução: JHS. Este livro contém avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá a suas filhas e irmãs, religiosas... Creio que todos os leitores concordarão comigo em que isto não pode, a rigor, ser chamado de título. Encontramos pela primeira vez o título atual na segunda redação do escrito (manuscrito de Valladolid), no dorso do frontispício, provavelmente não da mão da autora. Em segundo lugar, o livro também carece de um plano ou esquema do que deseja dizer a autora, que simplesmente confessa: Pretendo indicar alguns remédios para algumas tentações menores... também outras coisas, na medida em que o Senhor me inspirar e for me lembrando. Como ainda não sei o que vou dizer, não o posso determinar com acerto. Talvez seja melhor assim, já que é tão desacertado meter-me eu a escrever isto (C. prólogo. 2).
Sabemos que o livro foi escrito nos momentos livres roubados de seu descanso e em meio a muitas e absorventes ocupações, e portanto, com muitíssimas interrupções. Tanto é assim que às vezes a Madre esquecia o que já havia escrito e até o que estava tratando. Vejamos alguns exemplos interessantes:
- Saí bastante do assunto, mas é tão importante o que ficou dito que não me culpará quem o entender. Tornemos agora ao amor que nos deve unir, aquele a que chamo puramente espiritual. Não sei bem como explicá-lo (C 6, l).
- Há muito tempo escrevi as páginas precedentes e não tive oportunidade de continuar. Se não tornasse a lê-las, não saberia o que estava dizendo. Para economizar tempo, direi o que me for ocorrendo, sem plano algum (C 19, l).
Além disso, o Caminho é um livro que não foi terminado, e portanto permanece incompleto: Pois, irmãs, parece que (o Senhor) não quer que diga mais, porque não sei o quê, embora tivesse pensado continuar (C 42, 6). Assim conclui o livro, motivo pelo qual creio que dificilmente poderá ser chamado de livro no verdadeiro sentido da palavra.
Mas dirão: se não é um livro, o que é? Minha resposta é imediata e convicta: não é um livro, é uma pessoa, e por isto deve ser tratado com amor. Este escrito é a Madre Teresa de Jesus ainda viva: uma mulher cheia de coragem e energia que luta por seu ideal contra tudo e contra todos os que a ele se opõem; uma pessoa humilde, sim, mas tão convicta do que diz que não lhe importa o que digam, critiquem ou murmurem, venha de onde vier. Por isto, não hesitou em enfrentar os letrados de seu tempo, os que tinham como dogma de fé que as mulheres não serviam para nada, ainda menos para dedicar sua vida à oração mental.
Ouçamos o seguinte parágrafo, que, a meu ver, é a mais bela apologia jamais escrita sobre o lugar da mulher na Igreja de Deus:
Pois não sois Vós, Criador meu, ingrato, para que eu pense que dareis menos que o que Vos suplicam, e sim muito mais; nem execrastes, Senhor de minhalma, as mulheres quando andáveis pelo mundo; antes as favorecestes sempre com muita piedade e encontrastes nelas tanto amor e mais fé do que nos homens, pois havia vossa sacratíssima Mãe, em cujos méritos merecemos - e por ter o seu hábito - o que desmerecíamos por nossas culpas. Não basta, Senhor, que o mundo nos mantenha encurraladas... que não façamos em público coisa que valha nada para Vós, nem ousemos falar algumas verdades que choramos em segredo, mas também não nos haveríeis de ouvir em pedido tão justo? Não o creio, Senhor, de vossa bondade e justiça, porque sois justo juiz e não como os juízes do mundo, que - como são filhos de Adão e, enfim, todos varões - não vêem virtude de mulher que não considerem suspeita. Sim, que algum dia há de haver, Rei meu, que todos se conheçam. Não falo por mim, que o mundo já conhece minha ruindade, e eu folgo em que seja pública, mas porque vejo os tempos de maneira que não há razão para descartar ânimos virtuosos e fortes, embora sejam de mulheres (C, manuscrito Escorial 4, l).
Nada sobra nesse parágrafo, mas seu amigo o letrado dominicano Pe. Garcia de Toledo deve tê-lo achado extemporâneo e, assim, riscou-o sem compaixão, e a Santa, tão humilde como ousada, obedeceu a seu consultor e omitiu-o na segunda redação do livro (manuscrito de Valladolid). Mas a profecia estava feita, embora esse algum dia tenha-se feito esperar mais de quatro séculos, até 27 de setembro de 1970, quando o papa Paulo VI proclamou uma mulher, a Santa Madre Teresa, primeira Doutora da Igreja.
Como fundadora de uma família religiosa dedicada à vida de oração, ela era obrigada a deixar as coisas claras; e assim o fez, com decisão e coragem. Defende o direito a uma vida de oração vivida pela mulher na Igreja. Escutemos outra passagem significativa: Nenhum caso façais dos temores que vos quiserem incutir, nem dos perigos que vos pintarem. Seria engraçado, sem correr algum perigo, ir em busca de um grande tesouro por caminho infestado de salteadores! Os mundanos não são tão bons que vos deixem conquistar pacificamente o tesouro! Muito pelo contrário, por um ceitil* de interesse são capazes de não dormir muitas noites e de inquietar o corpo e a alma. (...) Crede-me, não vos deixeis enganar quando vos indicarem outro caminho. Só há um caminho: o da oração. Não é meu intento dizer agora se para todos a oração deve ser mental ou vocal. Para vós, ambas são necessárias. É o dever, é o ofício dos religiosos. Se alguém vos disser que é exercício perigoso, considerai a esse tal como o próprio perigo e fugi dele. Não esqueçais desta minha recomendação, que talvez vos seja útil. Perigo é não ter humildade e todas as outras virtudes. Mas dizer que o caminho da oração é caminho perigoso?! Deus tal não permita! (C 21, 5 - 7). Estas palavras da Santa soam como um verdadeiro desafio em um tempo em que muitos consideravam tais ensinamentos como realmente suspeitos.
Muitas filhas da Madre Teresa que viveram com ela e a conheceram muito bem escreveram e testemunharam que, ao ler este livro, tinham a impressão de estar ouvindo a própria Santa. No prefácio à sua edição do Caminho (1583), o arcebispo de Évora, dom Teotônio de Bragança, deixou escritas estas observações: Como eram tão grandes a caridade e o fervor desta Madre, e o desejo de pureza e santidade de suas filhas espirituais, não se contentou com o exemplo e a doutrina que em vida lhes deu, mas quis também que, depois de sua morte, permanecessem vivas as suas palavras, para que, em todo tempo, fizessem o ofício que ela em vida fazia. E, como pessoa que tinha tanta luz de Nosso Senhor e tanta experiência das coisas da religião, escreveu as anotações e documentos que figuram neste livro para que a tristeza que as Madres poderiam ter sentido com a ausência do seu corpo fosse remediada com a presença de seu espírito que está vivo nestas letras mortas.
Todo aquele que tiver um pouco de familiaridade com este livro terá tido a sensação de que, mais do que lendo um livro, está tratando com uma pessoa, com a própria Santa. Seja-me, pois, permitido repetir no final deste capítulo: aqui está não só um livro, mas uma pessoa, a própria pessoa da Madre Teresa viva. Procurem lê-lo sem interrupção e sem espírito de crítica quanto à concatenação de suas idéias e ao seu estilo. Toda palavra é santa; não procurem a lógica, mas vejam a Madre. Tratem-nas, pois, com respeito e com amor.
* Moeda de pouco valor; maravedí .