2. Peculiaridades do “Caminho”

Em primeiro lugar, o livro foi redigido devido à insistência de suas filhas, como a própria autora reconhece no Prólogo (nº 1), e com duas finalidades bem concretas: a razão de ter feito da oração o ponto básico e fundamental daquele gênero de vida (cap. l), e o modo de colocá-la em prática. Provavelmente, outra razão para ceder às solicitações de suas filhas foi preencher uma lacuna de suas Constituições primitivas. De fato, sabemos que estas foram escritas pouco a pouco, a partir de seu ofício de Priora em 1563, e em 1567 certamente já estavam concluídas, pois a Santa apresentou-as ao Pe. Geral, Juan Bautista Rubeo, por ocasião de sua visita a Ávila em 1567, que as aprovou muito agrado; embora nelas fossem detalhados o horário e outros pontos importantes, nenhum deles explicava às monjas a finalidade daquele gênero de vida.

Decidida a agradar às suas filhas, a Madre Fundadora dedicou à sua redação mais cuidado e interesse que a todos os seus outros escritos, como demonstra o fato de chegar a refazê-lo até três vezes, originais que felizmente chegaram até nós, a saber: o chamado “Códice do Escorial” (1563-1564), o de Valladolid (1569) e uma cópia corrigida pela autora, que se conserva nas Carmelitas de Toledo (1570). Não apenas isto, mas também o fato de que, antes de permitir que suas filhas o lessem, quis estar bem segura de sua ortodoxia e, assim, enviou o manuscrito a um “letrado”, o Pe. Garcia de Toledo, dominicano, que não foi parco em suas correções nas margens do texto, que depois a Santa tomou em conta na sua segunda redação (a de Valladolid). Para a Madre, o que contava não era o trabalho e o transtorno que tantas correções implicavam; o que lhe interessava acima de tudo era a certeza de que sua doutrina fosse correta e sólida.

O Caminho de Perfeição não só foi o único de seus escritos que a Madre autorizou suas filhas a lerem, mas também o único do qual permitiu que se fizessem todas as cópias necessárias, ao passo que só depois de sua morte teriam podido ler todos os seus outros escritos.

Estava tão convencida da importância deste livro na formação espiritual de suas filhas que, em certa ocasião, falando com o Pe. Yepes, chegou a dizer-lhe: “Alguns homens graves dizem que parece Sagrada Escritura.” E não há dúvida de que esse elogio deu-lhe muita felicidade, o que explica a grande consideração que sempre teve por este livro.

Eis por que a Madre fez todo o possível para vê-lo impresso, o que nunca tentou no caso de nenhum de seus outros escritos, com exceção das Constituições, que foram editadas em Salamanca em 1581, em vida da Madre. A razão para querer vê-lo impresso foi, sem dúvida, o fato de que muitas das cópias feitas pelas religiosas continham alterações e adições que a Madre não podia aprovar. Naquela época, contudo, essa iniciativa era um luxo para ela, que não tinha um centavo; por isso valeu-se de sua amizade com o arcebispo de Évora (Portugal), dom Teotônio de Bragança, que aceitou com agrado prestar-lhe o serviço de preparar a edição baseando-se no manuscrito de Toledo, que a Madre lhe entregou. Mas os procedimentos gráficos eram tão lentos que a edição só saiu em 1583, um ano depois da passagem da Madre a melhor vida. Contudo, é um fato inegável que a Madre considerou a pequena obra de extrema importância para a formação de suas filhas. De fato, evidencia-se que, entre todos os escritos da Santa, o Caminho de Perfeição ocupa o segundo lugar em número de traduções e edições, imediatamente depois de sua Vida.

Outro fato muito digno de nota é que, enquanto sempre se mostrou tão reservada com seus outros escritos, fez com que o do Caminho fosse enviado e lido também por seus amigos íntimos, tanto leigos (por exemplo, seu irmão Lourenço) como eclesiásticos, como o Prior da Cartuxa de Sevilha, o confessor de suas filhas na mesma cidade, e sem dúvida outros confessores, para que “lendo-o soubessem algo" de nosso gênero de vida e nosso modo de orar.” Este é um aspecto muito digno de nota, pois parece que a Madre estava plenamente convencida da necessidade de que todos os que estivessem em contato com suas filhas ou as confessassem soubessem algo de sua espiritualidade.

O fato de o Caminho de perfeição conter a medula do espírito teresiano é demonstrado por um fato singular que a história nos transmitiu. Quando, em 1606, mulheres piedosas (chamadas de “beatas”) reunidas em uma comunidade pediram aos Superiores de Bogotá (Colômbia) para serem admitida na Ordem, ou que pelo menos lhes fosse enviada alguma carmelita para instruí-las em seu gênero de vida, ou, caso isto não fosse possível, que ao menos lhes dessem um exemplar de suas Constituições, e os Superiores recusaram, elas, por conta própria, adquiriram um exemplar do Caminho de Perfeição para cada uma e adaptaram sua vida religiosa aos ensinamentos do livro. Quando os Superiores por fim concederam o que pediam e as incorporaram à Ordem, puderam constatar, com grande admiração, que, efetivamente, o seu modo de vida em nada se distinguia do de qualquer outra comunidade teresiana.