Permitam-me, antes de mais nada, oferecer ao leitor um panorama de conjunto deste magnífico monumento doutrinal da Madre Teresa, começando por explicar o lugar que o Caminho ocupa entre os escritos que a Madre Fundadora nos deixou. Uma coisa parece clara: todos os outros textos da Santa referem-se, de uma forma ou de outra, aos vários aspectos de sua vida espiritual até 1565; os Conceitos do Amor de Deus ou Meditações sobre os Cantares estendem-se até o ano seguinte, 1566; as Exclamações, até 1569; o Castelo interior ou Moradas até 1577; as Fundações, entre 1573 e 1582, terminando com a de Burgos, pouco antes de sua santa morte; suas Cartas, cerca de 550 conservadas (de um máximo de 15.000 que se acredita que chegou a escrever), referem-se a assuntos familiares, escritas a personagens de todo tipo, todas elas relacionadas com suas atividades pessoais. De uma forma ou de outra, todos esses escritos são autobiográficos e tratam de sua vida interior e graças místicas; em suma, de tudo aquilo que podia permitir que seus confessores a entendessem melhor.
O único livro didático que escreveu, a pedido de suas filhas, para ensinar-lhes a vida de oração e intimidade com Deus, finalidade de sua vocação, foi o Caminho de Perfeição. E o fato de a Santa ter clara consciência do que fazia nos é revelado por suas próprias palavras: então quero aconselhar-vos e, até posso dizer, ensinar-vos o modo de rezar vocalmente. Assim me é lícito na qualidade de mãe, conferida pelo ofício de Priora. (C 24. 2). E talvez por isto seja um livro de difícil leitura até para os leitores de língua espanhola, já que seu estilo é coloquial e livre, sem grande preocupação com as regras gramaticais ou sintáticas, como estava acostumada a fazer quando se dirigia a suas filhas de modo totalmente familiar.