UM OLHAR EXTERNO SOBRE O CAMINHO DE PERFEIÇÃO

Uma das características do dom concedido a Santa Teresa pelo Espírito Santo foi a grande iluminação que lhe permitiu manter o equilíbrio dentro da Igreja espanhola do seu tempo, que estava dividida em duas fortes correntes de opinião, os “letrados” e os “espirituais”, equilíbrio mediante o qual pôde usufruir dos melhores elementos de ambas as escolas de pensamento, graças ao seu realismo, fruto de um raro senso comum. Não é sem razão que Santa Teresa foi definida como “o senso comum canonizado”.

A Madre Teresa foi uma mulher verdadeiramente equilibrada e, precisamente, o seu carisma foi-lhe concedido quando já estava muito adiantada em seu caminho de perfeição pessoal. Sabe-se que uma autêntica inspiração do Espírito Santo sempre é acompanhada de uma grande certeza interior. É freqüente na vida dos santos uma espécie de paradoxo: por um lado, uma grande humildade, um desconfiar de si mesmos, uma necessidade premente de consultar outras pessoas; por outro lado, uma forte convicção que aumenta a certeza a respeito de tudo que Deus exige deles, sem fazer objeção alguma a tudo que tenham de sofrer por isso. Tudo isto aparece com toda clareza na Santa Madre: por um lado, uma grande humildade, acompanhada do temor de ser enganada pelo demônio; por outro, uma grande convicção de que tudo que deseja é o próprio Deus que deseja e quer. Essa convicção é fruto da origem divina de sua inspiração. E essa deve ser, sem dúvida, a razão pela qual a Igreja aprovou esse tipo de vida religiosa, confirmando assim o seu carisma.

A Madre Teresa sempre teve a firme intenção de obedecer em tudo e por tudo à Igreja. Sempre acatou as medidas disciplinares da Santa Sé com uma humildade bem determinada, embora algumas delas lhe causassem muito sofrimento e dor, como já vimos. Contudo, quando se tratava da vida de oração, quer dizer, se era boa ou não para as mulheres, ela foi guiada de modo particular pelo Espírito Santo, e com esta luz e esta força prosseguiu seu caminho e iniciativa fundacional até obter a aprovação da Santa Sé.

A meu ver, um dos pontos mais interessantes de sua missão na Igreja foi o relacionado com suas fundações. De início, todos os seus planos limitaram-se à modesta iniciativa de fundar um único convento, o pequeno mosteiro de São José de Ávila. O Provincial, a quem ela pediu a oportuna autorização, concedeu-a de início; depois, no entanto, atemorizado pela reação de Ávila contra a Madre, recusou-a rotundamente. O que fazer agora? Alguns teólogos ou "letrados" por ela consultados devem ter-lhe dito que o novo plano de vida que ela desejava estabelecer era bem diferente do que levavam os outros mosteiros de monjas da Ordem e que, portanto, só a Santa Sé poderia decidir a questão.

Foi então que a Madre, aconselhada por algum especialista em direito canônico, que também lhe preparou em latim uma espécie de rascunho da solicitação, enviou à Santa Sé, no final de 1561, uma súplica formal por meio de suas influentes amigas dona Aldonza de Guzmán e dona Guiomar de Ulloa. Na solicitação encontramos esta interessante frase: “E porque pensamos que não podemos fazer esse convento sem uma autorização especial da Santa Sé...” Talvez seja excessivo afirmar que a Madre Teresa interpretava isto como se fosse um novo carisma; mas não esqueçamos que este é o modo como o Espírito Santo age, e que, tendo ou não consciência, as circunstâncias especiais do caso fizeram com que a Santa tomasse a iniciativa de obter essa autorização da Santa Sé.

Com a publicação do Índice de Livros Proibidos (1559), a Santa Madre teve de desfazer-se de todos os livros de oração que tinha à sua disposição. Era um sinal dos tempos, e a maioria dos “letrados” concordava em que a oração mental não era coisa para mulheres. Assim, pois, ao iniciar a vida em sua pequena comunidade de São José, dedicada à oração contemplativa, teve de dotar suas filhas de algum meio de instrução; foi então que, com autêntica coragem varonil, redigiu para elas o seu Caminho de Perfeição, todo ele dedicado à nova forma de viver a vida carmelitana.