5. A reação de Santa Teresa

Perguntemo-nos agora como Santa Teresa reagiu à rígida atitude da Inquisição, quer dizer, como foi seu comportamento em relação ao magistério da Igreja. Há dois aspectos dignos de consideração: primeiro, sua atitude a respeito das medidas disciplinares; segundo, sua atitude em relação à doutrina ou pontos ainda em discussão.

Quanto ao aspecto disciplinar, sua atitude foi de pura e simples obediência a tudo que era imposto pela autoridade. Nunca se preocupou em fazer sutis distinções sobre se as ordens eram dadas pelo Papa, pelo Inquisidor Mor ou por qualquer outro. Sua atitude foi de sincera obediência; assim, seu primeiro ato foi destruir imediatamente sua pequena coleção de livros piedosos (cf. V 26, S). Já então gloriava-se de ser "filha da Igreja" e deixara escrito: "Várias pessoas vinham a mim, com muito medo, dizer-me que os tempos não andavam bons. Poderiam levantar contra mim algum falso testemunho e denunciar-me aos inquisidores. Achei graça na idéia. Fez-me rir, porque, neste ponto, nunca temi. Tinha consciência de que, em matéria de fé, eu estava pronta a morrer mil vezes para não ir contra a menor cerimônia da Igreja, ou por qualquer verdade da Sagrada Escritura. Respondia, pois, que a este respeito nada receassem. Em bem mau estado andaria minha alma se nela houvesse coisa de tal natureza, que me fizesse temer a Inquisição. Se eu imaginasse haver necessidade, seria a primeira a ir buscá-la. Se fossem falsas as acusações, o Senhor tomaria minha defesa, fazendo redundar tudo em meu proveito" (V 33, 5).

Quanto ao aspecto doutrinal, já foi diferente. Antes de mais nada, é preciso ter em mente que a Inquisição tratou apenas do aspecto disciplinar: corrigir abusos, castigar os julgados culpados de heresia, mas nunca - que saibamos – impôs uma espécie de "Syllabus", porque nunca cuidou de questões que eram tema de discussão entre os "letrados" e os "espirituais", quer se tratasse da oração mental ou de outros assuntos.

Isto explica por que os debates continuaram mesmo depois da intervenção da Inquisição e do Índice de Livros Proibidos de Valdés. E mais: ao ser interpelada por pessoas espirituais, a própria Santa defendeu seu ponto de vista pessoal, e por mais humilde que fosse, quando se tratava de verdades entendidas na oração, sentia-se tão segura "que não há teólogo com quem não se atrevesse a argumentar sobre a verdade destas grandezas" (V 27, 9).

Por isto, continuou praticando a oração mental, tanto mais por ver-se privada da leitura de livros devotos, que mandaram retirar – mas sempre tratando disto com os "letrados", como a melhor salvaguarda contra as persistentes opiniões errôneas. Com tão corajosa atitude, demonstrou bem às claras sua grande personalidade e originalidade de "Doutora", já que a fonte de suas convicções era o próprio Cristo, "seu livro vivo". Em outras palavras: ela não se alinhou nem com os "letrados" nem com os "espirituais" (o que hoje diríamos: nem com a direita nem com a esquerda), mas, muito sabiamente, pinçou o melhor de cada uma das correntes.