Santa Teresa nunca temeu a Inquisição, como ela mesma nos diz (cf. V 33, 5), mas bem sabia que, mais cedo ou mais tarde, haveria de cair em suas mãos. E foi precisamente o que aconteceu.[7] Nesta questão, haveria dois aspectos a considerar: primeiro, as investigações e o processo a que foi submetida (1574-1576); segundo, as acusações que lhe foram feitas depois de sua beatificação (1614) e reexaminadas pela Rota romana, que apresentou dois relatórios ao Papa. Aqui abordaremos apenas o primeiro aspecto, por que é mais pessoal.
Como já assinalamos, a Inquisição espanhola reagira de forma bastante brusca contra alguns grupos de "iluminados" da Extremadura e de Castela. Pode-se dizer que a Igreja espanhola era como um vulcão de violentas erupções, de modo que os "vigilantes" da fé estavam em situação de alerta contínuo. Mal terminavam de neutralizar um grupo, surgia em outro lugar uma nova labareda ameaçadora; apagados os grupos da Extremadura e de Castela, novos grupos de dissidentes surgiram na Andaluzia, sobretudo em Baeza e Ubeda, e, de modo especial, em Jaén.
Encarregado, no outono de 1574, de investigar a situação, o doutor Alonso López[8] enviou, em 7 de outubro do mesmo ano, a Madri, ao Conselho Central da Inquisição, um relatório a respeito de tudo que descobrira. Entre outras coisas, julgou muito suspeito o comportamento do doutor Carleval, discípulo de João de Ávila e professor da Universidade de Baeza, por causa de seus contatos com certa beata visionária chamada Maria Mejía. O Conselho da Inquisição responde ao seu relatório em 25 de outubro, encarregando-o de investigar a conduta do doutor Carleval, que a Madre Teresa conhecera em sua fundação de Malagón em 1568, causando-lhe tão boa impressão que o propusera como confessor de suas monjas. E mais, é provável que, quando ela entregou o manuscrito de sua Vida a sua amiga dona Luísa de la Cerda para que o enviasse a João de Ávila e este desse seu parecer a respeito do livro, tenha permitido que também o doutor Carleval o lesse.
O comissário da Inquisição, Alonso López, cumpriu com perfeição as ordens recebidas, e o resultado de suas investigações foi o envolvimento de muitas outras pessoas que tinham as mesmas tendências. Em seu relatório à Inquisição, escreve entre outras coisas: "Entre as acusadas, uma é certa Teresa de Jesus, monja carmelita de Ávila, que eles quer dizer, o grupo de suspeitos louvam como uma grande serva de Deus, pois escreveu um livro de revelações que consideram mais sublime que o de Santa Catarina de Sena. Pois bem, em uma de suas revelações, ela afirma que haveria muitos mártires em sua Ordem."[9]
A Inquisição de Madri ordenou ao doutor López que obtivesse o livro da Madre e o enviasse ao Conselho para que fosse examinado. Deste modo, tanto a M. Teresa como o doutor Carleval foram submetidos a uma vigilância especial; já em 12 de março de 1575, o comissário López enviava a Madri um relatório escrito sobre ambos. Mas isto era só um alarme preliminar, o pior ainda estaria por vir.
Em abril de 1574, outro episódio desagradável veio complicar as coisas para a Madre Teresa. Cansada das extravagâncias da princesa de Éboli, dona Ana de Mendoza, que, após a morte do marido, entrara para o mosteiro de Pastrana, a Madre Fundadora decidiu transferir as monjas de Pastrana para Segóvia a fim de subtraí-las do comportamento arbitrário de dona Ana. A orgulhosa e autoritária Princesa encarou a decisão da Madre como uma ofensa pessoal e, como vingança, denunciou o livro da Vida à Inquisição de Madri no final de 1574 ou início de 1575, coincidindo com o relatório acima citado do Comissário da Inquisição. Em 29 de janeiro de 1575, o Conselho da Inquisição de Madri escreveu ao Tribunal de Valladolid pedindo informações sobre o Pe. Inácio de Loyola e seu livro dos Exercícios, bem como a respeito de qualquer outro livro suspeito de conter erros dos iluminados; com isto aludia também, muito provavelmente, ao livro da Vida da Madre Teresa, já que esse Tribunal mandou chamar d. Álvaro de Mendoza, bispo de Ávila, que não teve outra opção a não ser obedecer às ordens e entregar o livro requerido.
Assim, pois, o autógrafo da Vida da M. Teresa foi enviado à Inquisição de Madri, que o entregou ao Pe. Hernando del Castillo, dominicano, para sua censura, trabalho em que foi ajudado por outros dominicanos, entre ele o Pe. Domingo Bañez. O autógrafo teresiano também foi lido pelo próprio cardeal arcebispo de Toledo, D. Gaspar de Quiroga, Grande Inquisidor Geral.[10] Embora tenha recebido a aprovação dos três personagens mencionados, o manuscrito não foi devolvido; permaneceu nos arquivos da Inquisição até 1588, ano em que Ana de Jesus (Lobera) obteve sua restituição para que fosse entregue ao frei Luís de León, primeiro editor dos escritos teresianos.
Este primeiro processo contra a Vida teve um final feliz para sua autora, embora, ao que parece, o alto Tribunal não tenha ficado totalmente satisfeito. Pouco depois, enquanto a Santa Madre encontrava-se em Sevilha, o livro foi de novo denunciado à Inquisição (1575-1576). Desta vez, contudo, estabeleceu-se um processo regular, cujas diversas fases podem ser determinadas bastante fielmente.
No final de 1575 (ou na primeira semana de janeiro de 1576), a M. Teresa foi acusada perante o tribunal de Sevilha por uma tal Maria del Corro, "grande beata", que fora admitida pela própria Madre Fundadora na comunidade de Sevilha, pressionada pelas insistentes recomendações de muitas pessoas respeitáveis. Mal entrou, ela, "que já havia sido canonizada pela cidade toda", começou a sentir-se descontente, pois faltavam-lhe os elogios a que estava acostumada; além disto, "não havia modo de fazer com que se acomodasse a coisa de religião", motivo pelo qual deixou o mosteiro, apresentando como desculpa que aquela comunidade seguia a doutrina dos iluminados, do que acusou perante o Tribunal de Sevilha tanto a Madre Fundadora como a comunidade inteira.[11] O Tribunal de Sevilha considerou a acusação procedente e a enviou ao de Madri, ficando à espera de suas instruções, já que a M. Teresa havia sido acusada nos seguintes termos: "A Madre está ensinando uma nova doutrina que é supersticiosa e muito semelhante à dos iluminados da Extremadura."[12]
Em 3 de fevereiro de 1576, o Conselho de Madri ordenou ao Tribunal de Sevilha que examinasse a acusada e lhe enviasse um relatório de tudo, mas sem tomar nenhuma decisão antes da aprovação do Conselho. Os oficiais do Tribunal de Sevilha cumpriram fielmente as ordens recebidas de Madri, e o interrogatório da comunidade prolongou-se por várias semanas, com o conseqüente alvoroço de toda a comunidade.
Como se não bastasse tudo isto, a M. Teresa recebeu do Capítulo Geral de Piacenza (1575) a ordem de deixar a Andaluzia e retirar-se para um dos mosteiros de Castela. Como poderia ela abandonar a Andaluzia em circunstâncias tão críticas? Depois de aconselhar-se com seus confessores e diretores espirituais, decidiu adiar a partida até o momento em que tudo estivesse esclarecido.
O arcebispo de Sevilha, d. Cristóbal de Rojas, confiou aos consultores da Inquisição, padres Rodrigo Alvarez e Enrique Enríquez, ambos jesuítas, a tarefa de realizar uma investigação completa, tanto sobre a Madre como sobre outras pessoas. O Pe. Rodrigo era um conhecido adversário de todas as "beatas" e visionárias, e chegara inclusive a escrever uma obra (ainda não publicada) contra essas pessoas supersticiosas que, com seu comportamento, induziam muitas outras em erro.
Segundo o protocolo ordinário, as fases principais de todo processo inquisitorial eram as seguintes: 1) Acusação ao tribunal local da Inquisição. 2) Envio da acusação ao Conselho Central de Madri, pedindo e esperando instruções. 3) Ordem de continuar e fazer uma investigação sobre o acusado. 4) Averiguação por meio de visitas imprevistas e outros sistemas. O usual, segundo a norma, era, antes de publicar uma decisão definitiva, ouvir os acusados e dar-lhes a oportunidade de negar a acusação ou persistir em sua atitude. No caso que nos ocupa, pediu-se à M. Teresa uma explicação completa por escrito, como se deduz dos Relatórios n° 53 e 54 dirigidos ao Pe. Rodrigo Alvarez,[13] que não passam de uma reafirmação do escrito; foram redigidos antes de 20 de abril de 1576, provavelmente em fevereiro ou março do mesmo ano. 5) Finalmente, a sentença definitiva era aprovada pelo Conselho Central e executada pelo tribunal local.
No caso da M. Teresa, não sabemos se uma sentença chegou a ser proferida. O que consta é que tudo havia terminado em 29 de abril de 1576, como ela mesma menciona em uma carta escrita a sua sobrinha Maria Bautista, priora de Valladolid. Uma coisa muito importante e que merece ser levada em conta é que, em todas essas investigações inquisitoriais sobre a Madre Teresa e sua doutrina, nem uma única vez é mencionado o Caminho de Perfeição - o que nos demonstra a prudência e inteligência da Madre, que, antes de entregá-lo a suas filhas, fez com que um "letrado" ou teólogo o lesse e revisasse, para assegurar-se de que tudo estivesse correto e livre de qualquer tipo de suspeita do ponto de vista da ortodoxia.
[7] Cf. ENRIQUE LLAMAS MARTÍNEZ, Santa Teresa y la Inquisición española, Madri, EDE, 1972.
[8] Foi um douto teólogo, mais tarde eleito Arcebispo de San Juan de Porto Rico.
[9] Madri, Arch. Hist. Nacional de la Inquisición, leg. 2393.
[10] Eis o que diz a Santa em uma carta a seu irmão Lorenzo (27-28.11.1577) a respeito da Vida retida na Inquisição: "De meus papéis há boas notícias. O próprio Inquisidor Mor os lê, o que é coisa nova (devem tê-los louvado), e disse à dona Luísa que não havia ali coisa alguma que tivessem que fazer nela, que antes havia bem que mal."
[11] Para a "versão dos fatos", Cf. María de San José (Salazar), Libro de recreaciones, em Escritos espirituales (ed. de Simeón de la S. Familia, Roma, 1979), pp. 205-207. Ver também as cartas de S. Teresa de 26.IV.1576 e 13.VI.1577.
[12] Carta ao Conselho de Madri (23.1.1576), cf. Arch. Hist. Nacional de Madrid, leg. 2393.
[13] Assim
relata o próprio padre Rodrigo Alvarez (BMC 18, p.15).