2. Princípios fundamentais da reforma

Os princípios fundamentais da reforma e renovação na Espanha podem ser reduzidos aos três seguintes:

a) Um chamado geral à vida interior, junto com um certo desprezo pelas devoções ou práticas exteriores. Esta tendência teve origem na Alemanha e nos Países Baixos através dos escritos de Erasmo (o assim chamado "precursor" do protestantismo) e dos místicos, tais como Eckhart, Taulero, Ruysbroeck, Kempis, Herph e outros similares. Também não se deve esquecer o famoso Savonarola, com quem o próprio frei Luís de Granada se relaciona.

b) A prática da oração mental, com um certo desprezo pela oração vocal. O frei Luís de Granada chama a oração mental de "o melhor modo de chegar logo a possuir todas as virtudes", pensamento que encontramos repetido pela própria Santa Madre com plena convicção (cf. C 16, 3).

c) Uma forte tendência aos altos estados da experiência mística, considerados ao alcance de qualquer pessoa através dos esforços humanos e vistos como o marco de uma autêntica oração mental.

Estas correntes de pensamento chegaram à Espanha através dos escritos dos autores da Devotio moderna como reação contra a piedade sentimental - às vezes supersticiosa – da Idade Média, inclinada sobretudo a indulgências, relíquias de santos, oratórios, procissões, peregrinações, etc. É conhecida, por exemplo, a forte reação de São João da Cruz contra algumas dessas práticas.[6]

Os três princípios fundamentais que acabamos de expor são teologicamente sólidos e, considerados objetivamente, nada há que objetar contra eles. No entanto, a crise que se seguiu certamente não foi provocada por esses princípios tomados em si mesmos, e sim pelo tom excessivamente exagerado com que eram ensinados e pregados, como no Catecismo de Carranza e nos escritos de frei Luís de Granada, São Pedro de Alcântara e outros, nos que talvez fosse exagerada a ênfase dada à eficácia da oração mental. Outro motivo de crise está nas pessoas que, ao pôr em prática esses princípios, com seu entusiasmo excessivo, nem sempre souberam conservar o necessário equilíbrio, passando de um extremo ao outro.

Na verdade, ninguém critica os que se dedicam à vida interior, desde que não se descuidem das obrigações do próprio estado de vida, como aconteceria, por exemplo, se uma mulher casada negligenciasse os filhos, ou um marido omitisse seus deveres matrimoniais e paternos para estar na igreja. Conforme os ensinamentos da Igreja, tais obrigações têm prioridade moral.

Assim também, a oração mental é sempre boa, desde que não seja em detrimento da ação sagrada por excelência, que é a liturgia. Como também não deve levar a desprezar e abandonar outros exercícios de piedade, como ensinavam certas posturas extremas do protestantismo.

Finalmente, a vida mística é boa em si mesma, desde que ninguém pretenda ter uma experiência direta se o próprio Deus não a conceder como dom gratuito. Nem a vida mística deve ser encarada como pretexto para a inatividade (ou passividade), negligenciando a prática das virtudes cristãs e caindo no "quietismo", como fizeram os "dejados" ou os "molinistas", que a isto acrescentaram sua propaganda contra a hierarquia e contra o que hoje é chamado de a "instituição".

Em outras palavras, ocorreu então algo parecido ao que hoje sucede na Igreja depois do Vaticano II. Objetivamente falando, as Constituições conciliares, seus Decretos e Declarações, são todas muito boas e inspiradas mas, na prática da vida real, cada um às vezes as interpreta a seu modo. Daí a atitude dos "tradicionalistas", temerosos e opostos a toda renovação, e a dos "progressistas", amantes da liberdade sem restrições de lei nem autoridade.