Neste primeiro capítulo, limitar-me-ei a assinalar os elementos que podem ajudar-nos a penetrar e entender melhor o tipo de vida religiosa inaugurado por Santa Teresa. Deixando de lado qualquer consideração sobre a situação política e religiosa geral da Espanha no tempo da Santa Madre o que nos afastaria muito do nosso tema considerarei apenas o ambiente reformista em que nasceu e se desenvolveu o carisma teresiano.[4]
É fato sabido que a reforma católica na Espanha começou antes do Concílio de Trento (1545-1563); e mais, precedeu o próprio Lutero, sua rebelião e o início do protestantismo (1517). Essa reforma católica guarda semelhanças com o que hoje chamaríamos de "aggiornamento" e começou pelas Ordens religiosas.
Foi o famoso cardeal Jiménez de Cisneros, um dos mais influentes representantes da Igreja espanhola, que iniciou essa reforma, começando pela Ordem Franciscana em 1494, dois anos depois do descobrimento da América (12 de outubro de 1492). Escolhido pela rainha Isabel, a Católica, como seu confessor, foi nomeado Arcebispo de Toledo (1495) e, em 1507, após receber o capelo cardinalício, foi-lhe entregue a direção da Inquisição. Sua influência chegou ao auge quando, após a morte do Rei Católico D. Fernando, foi constituído Regente da Espanha em janeiro de 1516, apenas um ano depois do nascimento de Santa Teresa em Ávila.
a) A reforma Franciscana foi profundamente influenciada pelos autores da Devotio moderna, a saber: Kempis, Taulero, Herph, Eckhart, Ruysbroeck e, em certa medida, também Erasmo de Roterdã. Cisneros patrocinou a tradução em espanhol de muitos escritos dos citados autores, que tiveram um notável sucesso editorial, sobretudo nos conventos. Sua influência pode ser comprovada nos melhores escritores dessa reforma, tais como Bernardino de Laredo, Alfonso de Madri, Antônio de Guevara e outros, que, por sua vez, influenciaram grandemente a formação espiritual da Madre Teresa.
b) D. García Jiménez de Cisneros, sobrinho do cardeal Cisneros e abade da grande Abadia de Montserrat, iniciou a reforma dos Beneditinos, tanto nessa esta Abadia como na de Valladolid, entre 1493 e 1510. Foi autor do famoso Exercitatório espiritual, através do qual influenciou os Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. Embora os Beneditinos tivessem uma orientação espiritual predominantemente litúrgica, foi ele que estabeleceu entre eles as duas horas diárias de oração mental.
c) Em 1450-1550, realizou-se também uma reforma entre os Dominicanos da Província espanhola, sobretudo em Castela, que se deveu aos esforços do Pe. Juan Hurtado (1525), cujos discípulos e seguidores seriam mais tarde os principais conselheiros e diretores espirituais de Madre Teresa. Recordemos, entre outros ilustres Dominicanos, frei Luís de Granada, apóstolo da oração mental, e Bartolomeu de Carranza, arcebispo de Toledo, que foi denunciado à Inquisição espanhola e condenado pela de Roma, onde morreu. Mais próximos da Santa foram os padres Pedro Ibáñez, Vicente Barrón, Soto, Mancio, Chaves, García de Toledo e sobretudo o Pe. Domingo Bañez, que foi o diretor que incentivou e permitiu à Santa que redigisse o Caminho de Perfeição.
d) São Pedro de Alcântara instaurou a reforma dos Franciscanos Descalços (também chamados de Alcantarinos), em cuja família religiosa depois professaria um sobrinho da Madre, chamado frei Antônio. Madre Teresa sempre nutriu grande admiração por frei Pedro de Alcântara, que exerceu profunda e decisiva influência sobre ela, aconselhando-lhe de modo particular que se deixasse guiar não tanto pelos "letrados", mas sobretudo pelo Cristo despido na cruz. Além desta, houve na Província de Valladolid outra reforma Franciscana menos conhecida, mas não por isto menos importante, devida a São Pedro Regalado.
e) Também os Carmelitas desempenharam o seu papel na reforma religiosa espanhola. Seus conventos, especialmente os situados em Castela, seguiam a observância ou reforma sorethiana (assim chamada em memória de seu autor, o beato Juan Soreth, Superior Geral da Ordem), juntamente com onze mosteiros de monjas espalhados por toda a Espanha. Cinco desses mosteiros eram de "santimoniais", quer dizer, constituídos por monjas de estrita observância: clausura, ofício coral, duas horas de oração diárias. Trata-se dos de Valladolid, Sevilha, Granada, Paterna e Ecija. Outros cinco eram os chamados "beatérios", ou seja: mosteiros sem clausura, mas com a recitação do ofício divino e as duas horas de oração mental por dia.
O Mosteiro da Encarnação de Ávila, onde a Santa Madre tomou o hábito, não fazia parte de nenhum desses dois grupos, pois, embora suas monjas fizessem votos solenes e recitassem o ofício coral, não eram obrigadas à clausura nem às duas horas diárias de oração mental. Por isto, durante a entrevista de 1567 entre o Superior Geral da Ordem, Pe. Rubeo, e Madre Teresa, quando esta assinalou-lhe que "nós não temos obrigação de clausura", referia-se a clausura em sentido estrito, sem nenhum tipo de relaxamento.[5]
f) Os Jesuítas, ou Companhia de Jesus, fundados por Santo Inácio de Loyola em 1534, estavam à época em seu primitivo fervor, e foi entre eles que a Santa encontrou valiosa ajuda e santos conselheiros como, por exemplo, os padres Cetina, Prádanos, Baltazar Alvarez, São Francisco de Borja e outros. Contudo, também entre eles surgiram algumas preocupações em melhorar. Assim, para citar um caso, o Pe. Nadal escreveu a Santo Inácio rogando-lhe que introduzisse um tempo mais prolongado de oração mental, "porque dizia quando saímos à rua e as pessoas nos perguntam quantas horas de oração mental fazemos e lhes respondemos que só meia hora por dia, devemos suportar com embaraço os seus sorrisos de comiseração". É que, naquela época, a oração mental tinha-se tornado uma espécie de moda.
g) Também o clero secular estava sensibilizando-se a este gênero de reforma ou renovação graças aos esforços incessantes de São João de Ávila, o chamado "apóstolo da Andaluzia", que conseguiu reunir ao seu redor numerosos sacerdotes e discípulos que trabalhavam com ele na instrução e pregação ao povo de Deus. A fama de sua santidade estendeu-se por toda parte, de tal modo que a própria Madre Teresa não se sentiu tranqüila e segura enquanto não conseguiu que o santo sacerdote lesse e aprovasse o livro de sua Vida.
E não
apenas o clero secular e regular, mas até os leigos acompanharam com
fervor e entusiasmo esse movimento de renovação religiosa. Diz-se
que até as moças que iam buscar água na fonte costumavam
ler o livro de meditações do frei Luís de Granada enquanto
esperavam que as jarras enchessem.
[4] Para mais detalhes, cf.Tomás de la Cruz, Introducción al Camino de perfección, ed. Facsímile, Tip. Poliglotta Vaticana, 1965, pp. 9-168. Cf. também do mesmo autor: Santa Teresa e i movimenti spirituali del suo tempo, em Santa Teresa, Mestra di orazione, Roma 1963, pp. 7-54.
[5] Cf. OTGER STEGGINK, La reforma del Carmelo español, A visita canônica do Superior Geral Rubeo e seu encontro com Santa Teresa (1566-1567), Roma, Institutum Carmelitanum, 1965.