V Centenário do Nascimento de Santa Teresa

PARA VÓS NASCI

(1515-2015)

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Em 15 de outubro de 2015 a Ordem  do Carmelo, comemorará o V centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus. Nesta Página traremos sempre a contribuição espiritual de documentos sobre Santa Teresa. Iniciaremos com o Documento Para Vós nasci, já estudado em toda Ordem:

(PARA CONHECER O RESUMO DA VIDA DE SANTA TERESA CLIQUE EM NOSSA HISTÓRIA)

Para Vós Nasci

“Vossa sou, Para Vós nasci, Que quereis fazer de mim?”

Proposta para a celebração do

V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus (2015)

Segunda parte. Fazer uma leitura actualizada dos seus escritos
I.
Aproximação ao nosso contexto a partir da experiência de Teresa
23. O carisma que brota da vida e dos escritos da Madre Teresa, expandiram-se e enriqueceram-se ao longo dos séculos, graças a um melhor conhecimento das suas obras e da sua experiência carismática, presente nas Constituições, tanto dos frades como das monjas e da Ordem secular. Graças a esta renovada tomada de consciência, “hoje temos um conhecimento do nosso carisma, podemos tê-lo como possivelmente nunca na nossa história. Hoje, mais que nunca, os nossos santos, a espiritualidade que identifica a nossa família, são reclamados dentro e fora da Igreja, pelos mais variados leitores, que exigem que lhes participe esta riqueza (…). Com tudo, temos que nos perguntar como podemos responder às exigências dos séculos e dos tempos na Igreja e no mundo às grandes e legítimas aspirações, humanas e religiosas das novas gerações, para que possam cumprir de maneira mais eficaz e actualizada a missão do Carmelo teresiano no terceiro milénio” (No caminho com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Voltar ao essencial, 2003, 1). Por outras palavras, “é necessário, por isso, conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças, as suas aspirações e o rumo dramático que com frequência o caracteriza” (cf. GS 4; ib.6); e reter que a razão mais alta da dignidade humana é a vocação da pessoa à união com Deus (cf. GS 19). O carisma teresiano, como fica dito, consolidou-se numa forte experiência mística de oração, chegando ao seu pleno desenvolvimento à luz dos acontecimentos culturais e religiosos da sua época, aos que a Santa Teresa trata de dar uma resposta a partir da sua própria vivência, narrada nos seus escritos, e com a sua obra
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fundacional. É a mística encarnada na realidade histórica, sensível aos acontecimentos e comprometida no serviço.
24. A atitude da Madre Teresa pede-nos uma consciência e um discernimento de quanto acontece ao nosso redor, num mundo marcada pela secularização e pela pós modernidade, pelo ateísmo e pela descrença, sobretudo deste Ocidente, como cultura globalizadora que vai impregnando outras realidades geográficas. Sem dúvida, paradoxalmente, são cada vez mais os sintomas de um novo despertar religioso e de busca de uma espiritualidade, que responde às inquietações mais profundas do ser humano. Adverte-se a necessidade da mística, da recuperação da experiência da fé, para que o século XXI possa continuar cristão. Ao tempo, detectamos uma crise de identidade do homem mesmo, ao que se pretende definir sem referência alguma a Deus, o que atenta contra a sua dignidade e contra os valores transcendentais inscritos no ser humano, pois o homem é um eu aberto, como por uma ferida, pela paixão de transcendência. A espiritualidade teresiana, centrada no homem morada de Deus, aberta à comunicação com Ele, capaz de o acolher no mais íntimo do Castelo, ajuda-nos a tomar consciência da sua dignidade, ameaçada pela cultura actual. Por isso educar o homem na atitude contemplativa teresiana é ajudá-lo a descobrir a sua verdadeira identidade.
25. Juntamente com a crise do homem e o facto da descrença, cabe referir uma situação de injustiça, pobreza e exclusão. Também esta situação tem que ver com a revelação de Deus e a possibilidade de uma resposta humana a ela, iluminada pela experiência teresiana, Uma espiritualidade cristã que quer assumir os desafios do século XXI deverá necessariamente enfrentar-se com o facto da pobreza. A preocupação pelos pobres é algo claramente presente nas fontes da mesma revelação cristã. A experiência de Deus não pode realizar-se no alheamento, na indiferença, na falta de atenção face aos sofrimentos dos homens. Uma contemplação que não tenha em conta esta situação lacerante da nossa sociedade é biblicamente detestável, como é o culto a Deus que ignora o sofrimento do pobre e desvalido, denunciado pelos profetas.
26. Um dos sinais da vida religiosa e do cristianismo actual é a sua solidez existencialmente evangélica; é o que o Vaticano II denominou retorno constante às fontes de toda a vida cristã no seguimento de Cristo como norma suprema de vida evangélica (cf. PC 2), seguindo o carisma dos fundadores como fruto do Espírito Santo que actua sempre na Igreja. Todo o carisma, como experiência do Espírito, representa uma leitura renovada do Evangelho, uma nova espiritualidade que a explicita, aberta no tempo para ser aprofundada e desenvolvida constantemente pelos dons particulares de quem participa dela (cf. MR 11). Cristo é o Evangelho em pessoa, centro e norma última de toda a vida consagrada, origem e meta de todo o carisma. O carisma teresiano representa uma maneira original de ler o Evangelho, de contemplar a Cristo e de configurar-se com Ele num aspecto do seu mistério.
27. A originalidade de Teresa, o seu carisma na Igreja, vem-lhe precisamente da sua configuração com Cristo num conhecimento feito de experiência, quer dizer, da sua experiência mística e cristocêntrica (cf. V 9,1-3; 26,6; 27, 2-8, etc.). Neste sentido, o seu carisma é um carisma autêntico e de genuína novidade na vida espiritual da Igreja (cf. MR 12). A sua novidade é o êxito que supõe um avanço qualitativo na espiritualidade cristã, e se explica justamente pela proposta de uma nova maneira de viver o Evangelho que respondia às inquietações do seu tempo e, em certo sentido, às necessidades de todos os tempos. Por isso se explica também a ampla difusão dos seus escritos, que são uma iniciação à experiência cristã. Daí, a incumbência do Carmelo descalço hoje: viver intensamente o
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carisma teresiano, iniciar o ser humano de hoje na experiência contemplativa teresiana, à luz dos sinais dos tempos, e trabalhar na difusão das suas obras.
II.
Alguns núcleos vitais da experiência e doutrina teresianas
28. Em sintonia com a sensibilidade religiosa e a vivência da fé cristã hoje, a experiência de Teresa é eminentemente pessoal e cristocêntrica. Realiza-se toda ela na mediação insubstituível de Jesus Cristo: “ Vi claramente que por esta porta temos de entrar se queremos que a soberana Majestade nos mostre grandes segredos” (V 22,6). O essencial da mística teresiana é uma percepção da humanidade glorificada de Cristo como sustento que nos sustenta e a vida da nossa vida (cf. 7M 2,6), desde a sua conversão (cf. V 9,1) até à descoberta de Cristo como livro vivo onde se vêem verdades e que “deixa impresso o que se há-de ler e fazê-lo de maneira que não se possa esquecer” (V 26, 6).
29. Se Cristo é o fundamento e conteúdo da mística teresiana, a experiência teologal da oração é a característica mais peculiar do carisma teresiano, o que explica o sentido do novo Carmelo e a função magistral de seus escritos; a que, como recordou Paulo VI na declaração oficial do Doutorado, “ Levou a cabo na sua família religiosa, na Igreja e no mundo, perante a sua mensagem perene e actual: a mensagem da oração”. E é que o seu redescobrimento da contemplação abrangeu a proposta de formas concretas, de um exercício acessível a toda a classe dos cristãos (cf. C 19, 15; 23,5), a instauração de uma nova pedagogia mediante o ensinamento de caminhos de iniciação e métodos para o seu desenvolvimento. Graças à pedagogia dos seus escritos, o carisma teresiano da contemplação converteu-se numa evidência no seio da Igreja, até ao ponto de não se poder pensar na realização da vida cristã sem a vivência desta dimensão teologal e incluso da vivência mística. Neste contexto há que ler o importante texto do Catecismo da Igreja Católica sobre a mística como plenitude da vida cristã, entendida como união cada vez mais íntima com Cristo (cf. CICat 2 014), e sobre a pedagogia da contemplação (cf. ib. 2 709-2 719).
30. O carisma teresiano, a sua experiência mística de Cristo, o ideal contemplativo ao serviço da Igreja, se encarnam visivelmente no que Teresa apresentará, mais tarde, como o nosso estilo de mortificação, irmandade e recreação (cf. F 13,5). Um ideal de vida comunitária configurado com estes três factores: uma comunidade que é antes de mais o “colégio de Cristo” (CE 20,11), conforme o modelo da Igreja primitiva mais radical, pois Ele está presente no meio da comunidade (cf. V 32, 11), é “o Senhor da casa” (C 17,7), o que “nos juntou aqui” (C 1,5; 3,1); uma comunidade sob as exigências da estrita igualdade e do amor verdadeiro (cf. C 4,7; 7,9) e é onde tudo é presidido por um estilo evangélico de amor efectivo, gratuito, desinteressado (C 4,11; 6-7; 5M 3,7-12), com o trabalho manual por norma (cf. Cst 28); uma comunidade humanista, com notas tão peculiares e insólitas para o seu tempo: a cultura, as virtudes humanas, a suavidade, prudência e discrição; a simplicidade, a afabilidade e a alegria (cf. C 41, 7-8; VC 42; NMI 43).
31. O projecto fundamental do Carmelo tem uma clara matriz mariana (cf. V 33,14). Por isso, Teresa de Jesus, que experimenta prematuramente na sua vida o poder intercessor de Maria (cf. V 1,7), propõe a Virgem Santíssima como Mãe e Senhora da Ordem (cf. F 29,23; 3M 1,3), como modelo de oração e abnegação para o caminho da fé (cf. 6M 7,13-14), como mulher entregue de alma e corpo à escuta e contemplação da palavra do Senhor (cf. MC 5,2; 6,7) sempre dócil aos impulsos do Espírito Santo e associada ao mistério pascal de Cristo por amor, e dor e gozo (cf. 7M 4,5). Daí que a comunhão com Maria penetre e marque com um selo mariano todos os elementos da nossa vida: a vida fraterna, o espírito de oração e
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contemplação, o apostolado em todas as modalidades e a mesma abnegação evangélica (cf. Const. 47-52). A figura evangélica da Virgem, além de ser modelo para a nossa vida, estimula-nos a seguir os seus passos, convidando-nos para que, como verdadeiros pobres de Javé, “configuremos a nossa vida à de Nossa Senhora pela contínua meditação da Palavra divina em fé e na multíplice doação de amor” Const. 49). Pela mão de Maria entremos no mistério de Cristo e da Igreja e nos façamos portadores, como ela, de Jesus e da Boa Nova do seu Reino. Por isso a dimensão mariana é, sem dúvida, juntamente com a dimensão cristocêntrica, uma das chaves fundamentais da leitura teresiana. E junto a Maria, São José como humilde servidor de Cristo e sua Mãe, exemplo vivo de comunhão orante com Jesus (cf. Const.52)

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